Livros demais

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17 de setembro de 2017


O problema, garoto, é que já li livros demais. Mergulhei em milhares de linhas recheadas de contos de fadas, de amores impossíveis, de aventuras infinitas, de sonhos acalcáveis, de suspiros, de lágrimas torrenciais. Eu li casos impossíveis, vi quem amava sem ser correspondido e comi as páginas torcendo para que o fim do personagem fosse aquele que todo leitor quer, mas que o autor judia.

Não tá fácil ser eu

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10 de setembro de 2017


Tá tudo errado. Estou perdida, outra vez, diante do espelho. Eu me encaro e não me vejo. Não nos vejo. Não sei onde foi que me perdi, nessa tentativa de ser mais do que eu podia. Talvez tudo seja uma mentira. Essa não sou eu de verdade. Ou talvez, não sou inteira. Escorreguei no meio de uma bebedeira e falei demais. Escapei, entre as letras, entre as linhas. Cacos e pedaços de mim, em cada entrelinha. Em cada suspiro. Piro e não me reconheço. Eu não sou essa que te apresento, mas eu gosto dessa moça que me fantasio. Eu sou um punhado dela também, mas tem mais, você entende? Eu sou meio leoa. Alimentei tempo demais essa fera que vive aqui dentro, sem nem me dar conta que ela andava adormecida. Mas o rugido que saiu foi tão fraquinho, que mais parecia um gatinho assustado. Você é um leão esfomeado e não vê nada além da carniça. E eu me finjo de banquete. Mas esse falsete não me satisfaz: eu preciso de mais.

tá na hora de te deixar

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3 de setembro de 2017

Ouça enquanto lê: Hobbie Stuart - When You Wake

Em algum momento nossos ‘nós’ se perderam. Eu não sei qual foi o acaso derradeiro que rompeu nossa ligação, só sei que há um hiato gigante. Acho que foi uma sucessão de acasos, sabe? Uma mágoa daqui, uma palavra mal dita dali, uma distância que só atrapalha e as interpretações erradas, o tempo todo. 

Na boa? Cansei

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24 de agosto de 2017


Fazia tempo, muito tempo, que eu não mastigava a raiva como quem mastiga um chiclete ruim. A descarga de adrenalina percorreu meu corpo inteiro, as pernas começaram a tremer e as mandíbulas se travaram, pressionando os dentes com força desmedida – algo que me rendeu uma dor de cabeça ao acordar.

A raiva durou pouco mais de dois minutos e trinta e sete segundos. O sal queimou nos olhos, deixei escorrer uma lágrima ridícula e continuei massacrando meus dentes. Senti ódio da raiva que pulsava. Senti ódio por chorar. Senti ódio por ir dormir bagunçada, agitada e com a mandíbula travada (bruxismo, saca?). Eu não queria esses sentimentos dentro de mim, sabe? Eu achava que merecia mais – ainda mais em tempos tão difíceis.