Ao amigo urso;

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3 de agosto de 2010

Que nunca chegará a ler essas linhas


Desculpa a analogia, colega, mas é que sempre te tive como um irmão fofo, mais velho. Aquele, qual não tive. Talvez seja exatamente por causa desse teu tamanho todo, ou talvez seja pelo excesso de bom humor e constante estado brincalhão. Queria só registrar, nessas linhas que você nunca terá conhecimento, que você tinha razão, colega, quando disse que iria chorar a semana inteirinha a tua falta. Não que tenha havido choro, mas houve um sentir falta. E embora eu ainda esteja acostumada com o fato de que tinha a tua presença dia sim, dia não, esse cair a ficha de que você não vem dia sim, outro também, me deixou uma tristezinha miúda, mas não despercebida.


Queria agradecer aos dias que meu humor melhorou consideravelmente depois de seis horas ouvindo o teu assobio incessante, depois de bater o pé, dizendo que teu ponto de vista estava sempre errado e sorrir com meiguice ao admitir que, dessa vez — somente desta vez — tu tinhas razão. Agradeço pela companhia, por você dar trela as minhas manias e por zoar comigo, chamando-me de formiga roedora de porcaria, por viver mordiscando alguma coisa no laboratório e pelas receitas trocadas, pela troca de informação inútil e pelas lembranças daquilo que eu deveria fazer e não fiz, sempre no melhor tom de amigo.

Queria te dizer que me diverti muito com as tuas puxadas no meu jaleco, com a tua insistência na lavação de peneiras, com a medição de força ao me arrastar pra rua enquanto eu queria me acomodar cá dentro. E te conto, agora, que nas vezes que tu me erguias, embrulhando as mangas do meu jaleco surrado, formando uma alça, não doía. Era tudo fingimento meu, só pra levar a mais riso, a mais birra e mais palhaçada, embora tenha deixado roxo, vez ou outra. Queria te dizer que achava graça dos cutucões, para convencer-me a mostrar as fotos das moças que conheço e que teus comentários bizarros valiam por todo o dia.

Por fim, queria te dizer que sim, você tinha razão ao dizer que sentiria tua falta, colega. O silêncio 'tá ensurdecedor nesse barulho constante. Não chega o hino do flamengo gritado lá de fora, não chega o assobio imitando pássaros, nem as músicas de igreja, nem teu urro de estresse, de corrida e de fome. A água mineral ‘tá mais cheia, pois tua sede não vem também. É psicológico tudo, lembra? Te contei uma vez, cutucando com o indicador na cabeça, repetidas vezes, só pra te ver alucinado, emburrado e saindo batendo porta. Pirraça.

Queria te dizer, mas não digo. Não disse. E sequer terei a oportunidade de. Mas sim, sentirei tua falta.

comentários pelo facebook:

7 comentários:

  1. talvez ele veja, talvez esteja vendo e você nem sabe...
    fica o sentimento ;**

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  2. Depois que se vão é que percebemos a falta que nos faz.
    Isso é normal.
    Beijão saudoso!

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  3. Acho que a pior falta que existe é aquela que a gente sabe que não vai passar! =/
    BEJOS

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  4. perder e dar valor, vão sofrer com isso até aprender a valorizar quem está do meu lado.

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  5. Sentir falta de quem esteve junto de nós, só faz nos provar ainda mais o quanto gostamos daquela pessoa e o quanto ela nos faz/fazia bem...

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  6. Descreveria os meus sentimentos aos amigos que se afastam pela brisa da vida, mais isso serve claro, pra gente ver o quanto eles sempre seram presentes em nossas lembranças.


    Beijinhoos e boa noite.

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  7. Saudade...sentimento que só se entende quando se sente. Ai, se percebe que não dá pra entende-lo.

    Parabéns.

    E um desejo comum: que ele esteja lendo!

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