O anjo mais velho.

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24 de janeiro de 2011

O cheiro de brigadeiro inundava o corredor estreito. Eu caminhei lentamente, carregando uma felicidade diminuta, dessa que sempre me invadia quando pegava a porta lá de baixo aberta, recém cumprimentando algum morador. Gostava desse chegar sem prévio aviso, sem identificação. Apenas um bater na porta, ignorando por completo a campainha que berrava histérica. Três toques — toc, toc, toc — e a porta aberta por um sorriso de sol, daqueles que esquentam por dentro. Ora vindo de uma moça de franjas curtas e jeito moleque, ora vindo de uma moça de rosto de porcelana e ora vindo embrulhado num abraço de barba por fazer e olhos de chocolate ao leite.


Esse dia o riso veio abraçado. Voz e violão, pendurado feito chaveiro nos dedos da mão. Sorri de volta, entrando sem pedir licença e reclamando do brigadeiro já feito. “Quem fez?”, perguntei, um bico já se formando. “Eu mesmo”, respondesse. “Achei que você não vinha ou demoraria a vir”. E soltasse aquele riso despreocupado de desculpas, desnecessário. Dei de ombros, emburrei por charme e revirei os olhos, teatralmente. Ouvi tua gargalhada e um “você não existe”, enquanto você fechava novamente a porta e eu entrava em seu apartamento tão familiar e beijava com as bochechas outros rostos felizes.

Sentei numa almofada fofa, pernas cruzadas e desejo de chocolate, logo saciado, pois você voltou carregando o violão numa das mãos e a travessa de brigadeiro e morango noutra. Largou-a entre mim e as duas meninas tão irmãs e começou a cantar. John Mayer, Jack Johnson, Ben Harper. A sala se encheu da tua voz rouca e melodia suave, enquanto a tarde se vestia de pôr-do-sol, despedindo-se com classe e dando vez pra uma noite sem lua, fresca como as noites de novembro tendiam a ser. E íamos desse jeito despreocupado, o relógio pulsando sem pressa, a tigela vazia e as conversas infinitas. Quando cansamos de tanto nada-para-fazer, você se levantou, carregando um sorriso maroto e se escondeu no breu do teu quarto por míseros segundos, logo voltando e carregando entre os dedos três pequenos pacotes prateados...

Um abraço triplo. Um “feliz natal” super antecipado e três anéis de borboleta, um para cada uma. Lembro que te beijei a testa e sussurrei um “vou sentir tua falta” e pedi para que você não demorasse a participar dos brigadeiros semanais. “Precisamos de trilha sonora”, argumentamos. Você nos abraçou brincalhão, feito irmão mais velho e, bagunçando meu cabelo, disse para que deixasse de ser boba: “Logo eu volto, bonita”...

“Logo eu volto, bonita”... A promessa mais improvável daquele fim de ano.

E a tua ausência fazendo silêncio em todo lugar.
[O teatro mágico]


Daniel Monteiro *05/05/1986
+24/01/2008

comentários pelo facebook:

21 comentários:

  1. Sinto o cheiro do brigadeiro, fumaça doce que invade os sentidos, a tonalidade de uma música envolvida em um copo de sorrisos caramelados. Congelando imagens que nunca se desfazem. Promessas embrulhadas em sorrisos que brilham feito sol.

    E não dá pra deixar de dizer que esse lay tá tão perfeito.

    beijo Linda FÊ

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  2. Como é singelo e ao mesmo tempo profundo! Igual a você. Amo seus textos. Bejos

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  3. Eu tenho uma ambição, talvez grande demais: escrever como você um dia.

    Que que tem sonhar?

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  4. Saudades de quem não pode mais voltar, de lembranças tão antigas e recentes ao mesmo tempo.

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  5. Moça,

    eu tô me esforçando, mas, é que não encontro palavra, como se tudo fosse desconforto. e é. um lado desse todo que a gente não costuma ir, mas vira e mexe tem.

    "Que nesse encontro que acontece agora cada um possa se encontrar no outro" é que eu sou do tipo
    "Um sol, com a cabeça na lua", que acaba "sobrando* tanto espaço dentro do abraço, falta tanta coisa pra dizer que nunca consigo", mas por favor "cuida de mim enquanto não esqueço de você"

    um abraço. maior que qualquer palavra :*

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  6. Ai que droga! Tipo assim, não dá pra ler um texto assim e não terminar abalado, cheio de uma saudade estranha e pensando "poxa, porque a vida é assim?".

    Ainda não entendo e nunca vou entender.

    Um beijo, Fê!

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  7. Sempre que venho aqui saio com a sensação de ter aproveitado bem o meu tempo. Você escreve muito bem e nada em teus textos é repetitivo, parabéns.

    E acredito que essas lembranças ficarão pra sempre, costumam ficar quando envolvem pessoas amadas que não poderemos ver novamente.
    *

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  8. Que lindo tudo perfeito!
    E não imaginei um anjo e sim um deus grego, rs.
    Beijos...

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  9. Saudade antecipada. Momentos simples assim são os que inspiram os textos mais emocionantes.
    Adorei!

    Beijo

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  10. Estou sem coragem para comentar, desculpa.

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  11. Fê, todas as vezes que te leio sobre o Daniel, as minhas lágrimas tendem a cair. É, eu me emociono, porque deve doer demais essa perda e a espera, eterna.

    Beijão!!!

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  12. Pior que a saudade é a saudade que sempre terá que se contentar com lembranças. O que salva é que elas são doces, belas e trazem o sentimento de "aproveitei muito bem enquanto pude".
    E é encantadora a forma como você as descreve.

    Encanto e identificação ao ler, lágrimas nos meus olhos no fim.

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  13. Como O anjo mais velho, do O Teatro, teu texto me trouxe paz, simplicidade e um doce ar de paixão (:

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  14. Te indiquei pra um selo ontem. Está no blog.

    Abraços!

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  15. Simplesmente encantador. Amenizou meu coração nessa quinta difícil.. beijo grande

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