Delírio

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29 de março de 2014


O livro de março foi "Delírio", da autora Lauren Oliver. E gente, que livro! Demorei um pouco para engrenar na história de Lena, mas depois de virar algumas páginas corri atrás de tempo para ler e conseguir terminar.




A história é narrada em primeira pessoa, pela Lena, uma menina de dezessete anos que sonha com o dia que acontecerá a sua Intervenção. A Intervenção é uma pequena cirurgia que todos os moradores de Portland devem fazer ao atingir a idade de 18 anos e, assim, ficam imunes à "doença" denominada de deliria nervosa ou amor deliria nervosa. No livro, o amor é tratado como doença e as pessoas que são infectadas são presas, tratadas à força e menosprezadas.

A personagem conta quais os sintomas de quem sofre do deliria como se fosse realmente algo ruim. A doença causa palpitações, perda de concentração, falta de apetite e, em alguns casos, levam à morte. Então a personagem sonha com o dia da sua intervenção, pois não quer terminar como sua mãe, que se suicidou por causa do amor (tem mais sobre a mãe, mas eu não posso contar senão vira spoiler). Uma pessoa "curada" não sofre. Não dói. A dor só existe porque há a doença. Os curados, não tem dor. Aí ela conta como é a vida dos curados: sistemática. Opaca.
Ambos foram curados, e quando pergunto se seus tios não são mais felizes agora, ele dá de ombro e diz:
— Eles sentem falta da dor também.
Isso me parece inacreditável, e ele me olha de esguelha e diz:
— É nesse momento que você realmente perde as pessoas, sabe? Quando a dor passa.
Não pode rir em demasia, pois o riso é considerado sintoma e pode desencadear a doença. Não se abraça, não se chora. Os casais são arranjados e se casam devido à compatibilidade: seja de classe, passatempos e futuro. Então eles formam uma família modelo e a rotina é simples: assuntos corriqueiros, filhos, amanhecer e adormecer na mesma rotina. E isso tudo, para Lena, é perfeito. Uma vida sem riscos. Uma vida sem dor. E, depois, Lena descobre: uma vida sem graça.
(...)Tenho apenas dezessete anos e já sei de algo que ela não sabe: sei que a vida não é vida se você apenas passar batido por ela.
No decorrer da história, como é visto na Sinopse, Lena acaba conhecendo um rapaz, o Alex. E ela descobre o mundo dele,descobre sensações diferentes e acaba se infectando com o deliria. Então ela começa a se questionar: até que ponto a doença é assim tão terrível? Até que ponto os reguladores e governantes estão certos quanto à vida sem a doença? Será mesmo que é pior sofrer de amor, do que sofrer as represálias dadas pelos reguladores, com direito à cacetes, cachorros mordendo e mortes?

De um modo geral, eu tirei o livro como um "metáfora". A comparação da autora quanto ao mundo de hoje, com as pessoas correndo demais, cheias de tarefas e afazeres, se permitindo dominar pela rotina sem graça e deixando de VIVER. Foi isso que o livro me passou: que o amor é uma forma de viver, de sair da linha, de quebrar rotinas, de sonhar alto. Pessoas que sofrem de rotinas, não sonham. Estão tão cansadas no fim do dia, que o sono é exaustivo e sem sonhos. Pessoas que sofrem de rotinas não tem tempo para abraçar um filho, não tem tempo para parar e dançar, ouvir uma música nova. Pessoas que sofrem de rotina, não sorriem, não observam o tempo, não escutam os passarinhos cantar porque estão sempre com pressa. Enquanto quem sofre do deliria sempre dá um jeito. Sempre tem um tempo e vê as nuances de forma diferente, sonha alto e não tem medo de cair, de se machucar. E, infelizmente, atualmente tem mais gente sofrendo de rotinas, do que gente sofrendo de amor.

O livro é lindo e tem aqueles trechinhos fofos e marcantes e que, alguns, fazem pensar. E o final do livro? O livro poderia ter terminado daquele jeito e ficaríamos com aquela bola na garganta imaginando o "depois", mas felizmente o livro é trilogia então tem como ler um pouco mais sobre os personagens. Lindo, apaixonante, chorável. Do jeitinho que eu gosto.

Lido e recomendado. Quer saber mais dele? Leia a RESENHA DA MAYA e a RESENHA DA BRUNNA, pois elas são bem mais detalhistas com relação à história do que eu. ;)

Trechinhos grifados da vez:

É tão estranho como a vida funciona: você quer alguma coisa e espera por ela, espera, espera, espera e parece que está demorando uma eternidade para acontecer. Então ela acontece, acaba, e tudo o que você quer é voltar àquele instante antes que as coisas mudassem.
Uma dor curiosa lateja no fundo da minha garganta, mas é claro que é assim que as coisas são: tudo termina, as pessoas seguem em frente e não olham para trás. É como as coisas devem ser.
Eu sempre soube que aconteceria. Todo mundo em quem confiamos, todos aqueles com os quais pensamos que podemos contar, com o tempo acabam nos decepcionando.
Na segunda vez que meu mundo explodiu foi também por causa de uma palavra. Uma palavra que subiu pela minha garganta e escapou de meus lábios antes que eu pudesse pensar ou contê-la.
A pergunta foi: Quer me encontrar amanhã?
E a palavra foi: Sim 
Às vezes sinto que se simplesmente ficasse observando o mundo, simplesmente ficasse quieta e deixasse o mundo existir, às vezes, juro que, por apenas um segundo, o tempo congela e o mundo para. Apenas por um segundo. E se, de alguma forma, fosse possível dar um jeito de viver naquele segundo, eu viveria para sempre.

De fato, eu sublinhei muita coisa nesse livro.
A segregação está muito enganada. Deveríamos ser protegidos das pessoas que nos deixarão no fim, das pessoas que vão desaparecer ou nos esquecer.
— Tem certeza de que ser como todo mundo fará você feliz? (Alex na página 185, numa conversa que eu amei)
Isto vai me matar, isto vai me matar, isto vai me matar. E eu não me importo.
Quem nunca?
Sinto uma onda sufocante de tristeza que nada tem a ver com (....) ou algo do tipo. É apenas uma sensação que me ocorre de que o tempo está passando muito depressa, correndo. Um dia vou acordar e toda a minha  vida terá passado, e ficarei com a impressão de que ela passou tão rápido quanto um sonho.

Foi realmente isso que gostei no livro. A forma como é possível associar essa guerra inventada no livro com a vida que levamos hoje, com a forma como a sociedade dita as regras e nos faz encaixar nos estereótipos implementados durante décadas. Casar-se com quem dá futuro, arrumar um emprego que dê dinheiro e não ser aquilo realmente que gostaria de ser feito, fazer a faculdade mais promissora e não a faculdade dos sonhos, escolher destinos comuns e não algo inusitado. A maioria das pessoas hoje estão curadas. Existem, só. Não vivem.
Gostaria de poder fechar os olhos e virar poeira, sentir meus pensamentos se dispersarem como flocos de dentes-de-leão flutuando ao vento.
(...)de repente entendo o que meu nome representa, a razão por que minha mãe me chamou da Magdalena e o significado da antiga história bíblica sobre José ter abandonado Maria Magdalena. Entendo que ele abriu mão dela por um motivo. Ele a deixou para que ela pudesse ser salva, embora tenho sido um grande sofrimento perdê-la. Ele abriu mão dela por amor.

E para finalizar, uma frase que eu sempre disse e que Alex reforça:
Eu disse que, sem amor, também não haveria ódio; sem ódio, não haveria violência. Ódio não é o mais perigoso, dissera ele. É a indiferença.

comentários pelo facebook:

5 comentários:

  1. Achei sua resenha bem melhor que a minha. Tá mais cheia de detalhes... Mas eu nem sabia o que escrever depois que li... tô com raiva da Lauren pelo final. Ponto!

    Um beijo

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  2. AMEI! Vou procurar esse livro com urgência!

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  3. Resenha MARAVILHOSA!!!
    Comecei com um certo pré-conceito com o livro, mas conforme fui lendo foi dando uma vontade enorme de procurá-lo para ler e saber o que acontece com a Lena, com o Alex e com a cidade. Vou Ler sem sombra de dúvidas MF.

    http://www.novaperspectiva.com/

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  4. Fiquei com vontadinha de ler, claro! Comassim amor é doença, poxaaaaaaaaaan. Vivo enlouquecidamnte doente. :p
    E Fê, cê é a QUEEN das resenhas e trechos grifados, i loved. <3

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  5. Esse tá na minha lista de leitura faz um tempinho! Me apaixonei pela capa desde que o vi! HAHAHA

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