Confissões veladas #001

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2 de julho de 2015


Quando eu te liguei, não era pra falar contigo. Na verdade, eu só queria ouvir a tua voz naquele dia. Fazia tanto tempo que a gente não se via, tanto tempo sem tropeçar no teu sorriso... Acordei angustiada, meio que afogada na saudade de te sentir presente. Tentei disfarçar, fugir, mas não deu. Peguei o telefone.

Em meio a tanta indecisão resolvi que ligaria. Mas ai veio a dúvida, o que fazer quando você atender? Perguntar como ia a vida? Perguntar se você estava bem? Ou simplesmente ficar muda, e só ouvir a sua voz? Se passavam tantas coisas na minha cabeça que o medo de te ligar, o medo do que seria após o seu "Alô" me fez recuar novamente e fiquei imaginando o que você diria ao ouvir minha voz.


A verdade é que tinha deletado todos os teus contatos. Apaguei da agenda num acesso momentâneo de raiva, porque eu queria odiar você de todas as maneiras. Parecia-me mais fácil seguir a vida assim, te odiando. Mas meus dedos sabiam teu número de cor e, num instante, eu levava o celular ao ouvido. Pulsava um sentimento bipolar do lado de dentro: metade de mim torcia para que você não atendesse, outra metade torcia para que você sussurrasse que estava esperando há dias por aquela ligação. Você atendeu no terceiro toque e teu alô veio carregado num sotaque que você já não tinha, o que me pegou desprevenida. Emudeci.

E, num segundo apenas, voltou tudo à tona. O teu jeito carinhoso de colocar meu cabelo atrás da orelha, aquele sorriso gostoso quando a nossa música tocava, o gosto forte de tua boca na minha. Confesso que chorei em silêncio. Eu queria gritar que ainda te amava, queria gritar que meu mundo era vazio e sem graça sem tua presença. Queria tanto não ter dito Adeus...

Você esperou pacientemente do outro lado da linha enquanto eu lutava contra meus sentimentos. Como você sempre sabe quando sou eu? Você sempre soube. Eu fiquei ruminando as palavras entaladas na garganta, querendo dizer o tanto que gritava aqui dentro. Você invadiu todo o meu tormento.
— Não chora. E não precisa dizer nada, pequena. A vida está um caos do lado de cá também, embora pareça tudo no lugar. Algumas coisas se resolveram e teve um dia que quis compartilhar meu sucesso contigo, mas achei que seria invasivo demais... Como você está?

Eu continuei muda, olhando para o vazio, lembrando aquela noite em que você encontrou uma de minhas cartas (daquelas que escrevi pra nunca enviar). Você ficou sem graça, me olhando meio perdido e me pediu desculpa... "Eu não sei escrever assim, "romanceado"."... e eu me senti uma idiota apaixonada, como agora.

Você interrompeu meu silêncio, fazendo com que as lágrimas caíssem torrenciais e silenciosas.
— Sinto tua falta também, mas é uma falta meio egoísta. Eu gostava do teu amor, enaltecia meu ego, o que é muito, muito, muito errado. Eu sabia o tamanho do teu gostar, mas depois que li umas palavras tortas, rabiscadas numa folha de papel qualquer, eu me assustei, sabe? Como que cuida de um amor tão grande desse? Eu quis te amar de volta, mas não consegui. Sinto muito. Há um querer bem gigante do lado de cá e uma vontade imensa de te dar colo e te ninar, mas não mereço.

— Tudo bem. Eu nem devia ter ligado... Foi bobeira minha... De repente me bateu uma vontade de saber como você vai, se tem conseguido dormir melhor, se tem ido viajar...
Na verdade mesmo, eu só queria te dizer que ainda dói, que não cicatrizou, que ainda guardo aquela camiseta que ficou com teu perfume, e que muitas vezes adormeço abraçada a ela. Poxa, eu queria mesmo era gritar pra você voltar, que ainda sou sua, que nossa casa está vazia sem você...
Engoli as lágrimas. Você nunca me ouviu de verdade.

E pela primeira vez o silêncio me bastou, logo eu que sou compulsiva pelas palavras. O que me calou foi justamente o peso que você atribuiu aos meus rabiscos soltos sobre nós. Me diga que a vontade passou, que rolou outros beijos e calcanhares a alcançar, mas não fale nada sobre medo. Eu e você nunca combinamos com medo, nem com estas lágrimas que afundam no sofá. Desligo sem mais, você já disse tudo.

"Confissões veladas" são os textos coletivos escritos pelos colaboradores do #blogdaMF. Eis o primeiro dos muitos que ainda virão. 

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