noites de um verão qualquer

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30 de setembro de 2015


"A paixão pode ser avassaladora.
Muitos amores começam logo os gatos saem a noite,
e acabam-se com o canto do cotovia."

Relato 1.
Estava completamente desatenta quando esbarrei nele. Ele me sorriu, enquanto eu desculpava-me, dizendo que não fora nada, que não machucou e perguntou se eu quem estava bem. Eu? Eu estava era ótima! Aquele moço de traços fortes era digno de estátua grega. Simpático, perguntou-me o nome, ofereceu um drink e conversamos a festa toda. Quando eram cinco horas da manhã, dei-lhe um tchau, no que ele me puxou de volta, dando-me um beijo.


Relato 2.
Era primavera. Caminhava lentamente pela orla da praia, prestando atenção nas cores do céu que tinha o sol quase dormido. Perto de temporada, tudo virava caótico, movimentado e eu gostava desse agito interminável, dessa atmosfera de férias constantes, de dondocas passeando com cachorros, carros barulhentos e sons mais barulhentos ainda. Mistura de gêneros, sotaques, cores. Eu me sentia menos deslocada, quase como turista na minha cidade natal. Foi então que ouvi. Vinha do outro lado da rua, um assovio insistente que, de tanto chamar, obriguei-me a virar. E o vi. Ele, aquele moço simpático da noitada de meses antes, chamando-me, abanando os braços e esperando o fluxo de carros parar, para que pudesse atravessar.

Relato 3.
Saímos duas noites seguidas. Ele me comprou flores e me pagou um jantar à beira mar. Sempre mostrando os dentes perfeitos em um sorriso constante e os braços fortes em camisas justas. Moreno de olhos claros, deteve minha atenção e eu ia, pouco a pouco, prendendo-me mais e mais à ele. Paixonite boba, platônica, adolescente em um mulher de vinte e tantos anos. Na terceira noite ele subiu em casa, levou um vinho tinto seco, uma comédia romântica e me prometeu a sua melhor companhia — palavras dele.

Relato 4.
Acordei com o sol cegando meu rosto e demorei à me localizar. Eu estava seminua deitada no carpete fofo da sala. A tevê zunia baixinho e os copos estavam, lado a lado, em cima da mesa de centro. O dele do lado esquerdo, o meu, borrado do batom da noite anterior, do lado direito. A noite anterior. Ela fora fantástica, quente e intensa. Ele me tomou nas mãos, levou-me à lua e trouxe-me de volta. Alucinação, ardente, completamente. E lembrei das palavras, antes e depois. Antes ele disse que iria embora, nem lembro pra onde, e que iria amanhã cedo. Ou melhor, hoje cedo. E hoje, madrugava, quando ele me tomou nos braços de novo, cutucou meu coração e sussurrou um adeus nos meus ouvidos. Partiu. Sem telefone, sem data de retorno. Uma noite, apenas.

Relato final.
Hoje completam-se quatro anos desde que ele se fora. Eu continuei caminhando na orla, com os ouvidos atentos ao assovio que eu reconheceria em qualquer lugar. Nunca mais voltei ao restaurante, nunca mais bebi vinho. Lembro dele mais frequentemente do que gostaria, do que seria possível. Escuto-o me chamar. “Mãe” diz ele “vem cá ver”. Aproximo. Meu micro amor, amor maior. Carregando os mesmíssimos olhos claros e sorriso do pai. O pai de uma noite só.


comentários pelo facebook:

6 comentários:

  1. Eu não sei nem o que dizer. Esses textos assim de um gole só, encantam por si só.
    Mas esse moço de olhos claros aí, sei não. Pudia aparecer de novo, pudia ter usado camisinha... mas pera e se eles usaram e ela falhou? ( nunca saberemos), uma coisa é certa, esse pequeno amor gigante a moça terá pra toda a vida. Que ela seja feliz com ele, com ele e só, até que alguém venha somar, ou não.
    Abraço, Maria!
    D'cifrando

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    1. Quando escrevo essas coisas, Deise, fico pensando quantas pessoas tem essa história.

      Beijos lindona.

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  2. Intenso. Essa palavra consegue resumir bem esse texto. Uou. Arrasou como sempre, MF!

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  3. A intensidade desse texto me deixou sem palavras. Maravilhoso e reflexivo. Adorei de verdade!
    Beijos! Adorei seu cantinho! <3
    Livros, Amor e Mais

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  4. Caraca! Esse final foi surpreendente. Assim como todos os teus textos ♥ Fiquei realmente ababacada. O cara de uma noite só às vezes é mais inesquecível que o de muito tempo!

    <3

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