sobre rotinas.

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29 de fevereiro de 2016



Dezenove de fevereiro. Dois mil e dezesseis.

O celular toca estridente e desligo sem pensar. O sol tem preguiça de levantar e a fraca luz da manhã deixa cama e lençóis ainda mais convidativos. “Já está na hora desse horário de verão acabar”, penso. Tenho pensado isso todos os dias. Faz duas semanas que as noites estão compridas demais e a falta de claridade não torna o acordar mais fácil. Encerra o tempo da soneca. O celular toca de novo. Me remexo em meio à preguiça e à coberta. Te procuro no lado esquerdo da cama, como se você pudesse estar ali. O cheiro de café invade o quarto e anuncia que você está de pé —faz tempo.


Procrastino, como todas as vezes. Espreguiço sem pressa. Você entra e faz sombra no quarto. Aproxima-se de mim, fazendo graça da minha preguiça de sempre. Roça a barba em meu rosto – meu melhor despertador. Eu envolvo seu pescoço com meus bracinhos finos e te puxo para perto. Você se rende e se deita sobre mim, se permitindo um nano-cochilo de cinco segundos. Quando muito, oito. Levantamos. Você veste apenas uma calça jeans e reclama do calor. “Hoje vai ser um dia daqueles” comenta. “É”, concordo.

Arrasto-me até o banheiro, faço xixi e lavo o rosto. Você esquenta a água do chá e liga a sanduicheira. Volto para o quarto, tiro o pijama, visto um jeans e uma camiseta fresca. Você prepara o café – com leite para mim, puro para você – e põe os sanduíches para esquentar. Um misto quente para você e um queijo quente para mim, que reduzi o consumo de carnes vermelhas. O lanche fica pronto. O café também. Você grita da cozinha “Vamos, amor!”. Termino a maquiagem, espirro um pouco de perfume e sento ao seu lado. Comemos em silêncio, tocando levemente os braços. Eu me atualizo das futilidades no celular e você lê alguma notícia no seu. Terminamos o café em cinco minutos, cronometrados.

Pratos na pia e um gole d’água. Escovamos os dentes, andando de um lado a outro no apartamento. Dentes escovados, eu volto para o quarto para uma última olhadela no espelho. Você põe seu chá numa garrafa térmica, pega um pote de frutas, veste a camisa. Passo por ti e chamo o elevador. Você apaga as luzes e chaveia a porta. O elevador chega e entramos suspirando.

“Mais um dia” você fala. “Menos um dia” eu complemento.

Seguimos lado a lado. Eu carrego uma bolsa nos ombros, a chave do carro numa das mãos e o notebook na outra. Você carrega chaves, frutas e chá. Nos despedimos com um beijinho inocente no meio da garagem. Meu carro na direita, seu carro na esquerda. Partimos.

O sol invade o interior do carro e me cega por uns minutos. “Adoro o horário de verão”, me contradigo, porque não tem como não amar esse espetáculo todas as manhãs. Você arranca com o carro, saindo da garagem. Vou logo atrás. Sinal se abre, sinal se fecha. Sincronizo a rádio que ouvimos todas as manhãs. Eu no meu carro, você no seu. Seta para lá, seta para cá. Pegamos a rodovia. Dirigimos para a mesma empresa. Você é mais rápido que eu e te perco. Fico escondida atrás de um caminhão, sem pressa nenhuma.

Seta para lá, seta para cá. Estaciono. Você já está estacionado, perdido n’algum lugar fora da minha visão. Desço do carro, caminho para a recepção. Bom dia daqui, bom dia dali. Entro na fábrica e vou em direção à sala onde trabalho — mesma que a sua. Você está concentrado ao telefone, sério. Eu me ajeito numa mesinha. Faço minhas coisas. Caminho. Verifico. Meço. Volto e registro. Comparo. Você não está mais na sala. Fico sozinha um tempo. Entra e sai gente. Mais bom dia, mais história.

Encerra meu tempo. Despeço-me de você. Eu saio às onze e meia e você, só as cinco. Te recordo do recomeço das minhas aulas e você faz firula com a saudade que sentirá de mim a noite. Caminho até a recepção. Tchau para cá, tchau para lá. Entro no carro. Sintonizo outra rádio. Aumento o volume e saio entre risos e cantos – que só faço porque não tem ninguém para ouvir comigo.

Paro na casa da mãe. Estaciono. Roubo um almoço. Cochilo, cinco minutos. Desço para o escritório e fico trabalhando ali um tempo. O telefone toca uma vez, atendo. Você me manda mensagem, lembrando para ir comprar as coisas que me pediu – certo de que já havia esquecido. E havia. “Vou ali rapidinho e já volto”, digo para o pai, que aquiesce. Caminho sem pressa. Está quente e me arrependo da blusa preta. Entro na lojinha. “Cavalinha, açúcar mascavo, sal rosa e um pouco de castanha” digo à moça de franjas, que prontamente me atendeu. Aguardo. Ela ensaca, pesa e me entrega. Pago no débito. Pego as sacolas. Caminho de volta ao escritório reclamando outra vez do calor que invade o negrume da minha camiseta.

Respiro aliviada ao entrar no ar condicionado. Largo as compras sobre minha mesa, bebo um gole d’água. É tempo de ir. Despeço-me do pai, deixo um beijo para a mãe. Carrego tudo que é meu de volta ao carro e ligo a rádio e canto estridentemente até chegar em casa. Guardo o que foi comprado, tomo uma ducha quase fria. Saio do banho e ligo o ar condicionado do quarto. Me arrumo para mais uma jornada. Visto uma roupa confortável, refaço a maquiagem que acabei de lavar, seco os cabelos. Como uma torrada.

Cinco e meia. Você está voltando para casa e eu, saindo. Pego chave do carro e material da pós, chamo o elevador e fecho a porta. O elevador chega enquanto estou terminando de chavear o apartamento. Desço. O sol da manhã perde espaço para o cinza das nuvens. “Vai cair uma chuva daquelas”, comento sozinha. Caminho até o carro, ligo e saio.

Chego a aula antes da chuva cair. Estaciono num local fácil de sair depois, numa esperança de pegar a menor fila possível. Fecho o carro. Caminho. Assino a lista e pego uma apostila. Subo as escadas – dois lances. Revejo os amigos. Boa tarde para cá, boa tarde para lá. Uns abraços apertados, uns beijos nas bochechas. A aula se inicia. Intervalo. Um café para manter acordado. Ainda faltam duas horas e meia para ir embora. Retorno para a classe. Você manda uma mensagem, perguntando que horas vou sair. Respondo que no horário de sempre. “Tá com fome?” você pergunta. Respondo que sim, mas que não precisa se preocupar, tampouco esperar. Você diz que vai buscar um lanche e eu aceito.

A aula termina. Chove. Corro para o carro e não resolve, molha mesmo assim. A fila da saída é comprida. Aguardo, pacientemente. O dia está quase no fim e o meu estômago está quase nas costas. Ronca — meu estômago, os trovões e o carro. Os olhos pesam cansaço. Pago o estacionamento e aguardo o troco. Saio. Volto para casa. Estaciono e subo já tirando os sapatos.

Você me recebe de pijamas e banho tomado. Senta comigo a mesa e me vê comer. Assistimos um pouco de tevê. O sono bate. Tomo uma ducha, escovo os dentes e te encontro na cama, já escondido debaixo das cobertas, ar condicionado ligado. Entro debaixo do edredom e te encontro, quente. Você reclama do meu corpo gelado, mas não me afasta. Dá um beijo de boa noite demorado. Enroscamos nossos dedos, depois de um dia inteiro de pouco toque. Você suspira e logo dorme. E eu, embalada pela tua respiração tranquila, também adormeço.

Amanhã recomeçamos.

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comentários pelo facebook:

5 comentários:

  1. Meu Deus do céu, que texto é esse?
    Uma rotina de saudade, não é? De pressa e certa distância. Mas ao voltar pra casa, o lar-pessoa espera e é aconchego, e é com ele que o(s) dia(s) recomeça(m).
    Deu um apertinho no coração e uma vontade gostosa de viver isso, sabe?

    Beijo meu bem :*

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  2. Maturidade, amor, companheirismo, cumplicidade. Tudo num texto-dia só. <3

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  3. Simples, mas envolvente, eis seu texto. Não consegui parar e ler, refém do ritmo que você impôs com uso magistral da pontuação.
    A rotina pode ser fascinante!

    Meu blog:
    www.umavidaemandamento.blogspot.com

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  4. Aiiii que delicia de rotina! Deve ser tão bom saber que apesar da distância rotineira do dia-a-dia, no final de todo aquele longo dia, terá aquele abraço aconchegante nos esperando para aliviar todo o cansaço e matar a saudade do dia que passou!
    Que saudades que eu estava de te ler <3

    Beijos amore

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