Vai e vem

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4 de abril de 2016


A vida por aqui é pacata. Eu fico em um vai e vem tranquilo, sem pressa nenhuma. Às vezes me batem, angustiados. Os socos são frenéticos e violentos. Em outras a batida é leve, quase que receosa, como se relutassem em bater.


O ócio me fez mudar, gradativamente. Sou uma velha, bem posso lhe dizer. Nesse tanto de anos que já vi passar, tanto de gente que vi entrar e sair, adquiri o hábito de observar a vida. A lá de fora, a aqui de dentro. E, de todas as coisas possíveis de ver, eu gosto de ver são os olhos das pessoas. Das que entram, das que ficam e das que partem – para nunca mais voltar.

Os olhos das pessoas que me batem louca e fortemente são ferozes algumas vezes ou chorosos nas outras. Na pressa que possuem de me ver sair da frente, me batem e batem e batem... Dói, mas eu entendo. É difícil controlar a raiva. Felizmente, vi a raiva me bater duas vezes. A mesma pessoa. Foi um homem que começava a ficar grisalho e tinha um metro e oitenta de altura. Ele era um pobre apaixonado e tentou me derrubar das duas vezes que a mocinha decidiu ficar sozinha, sabe lá por qual motivo. As outras batidas foram mais tristes – a tristeza me bateu seis vezes e eu chorei em todas elas.

Uma vez foi uma menina. Ela chorava copiosamente, batia e gritava pela mãe. A mãe veio, abraçou a filha que apontava para o meio da rua, onde seu cachorrinho deitava sem vida. Fluffly era o nome dele e eu o vi passar diversas vezes por mim, todos os dias. A menina cresceu, mas sem cachorros, e quando mais velha, depois de partir pela primeira vez, ela voltou carregando lágrimas sentidas – dessa vez quem dormiria eternamente era a avó. Nas outras, rostos conhecidos. Perdas conhecidas. Nunca gostei quando a tristeza batia. Sentia como se perdesse um pouco de cor.

As batidas receosas são as minhas melhores, porque as pessoas que batem carregam um riso bobo e um olhar apaixonado. Relutam em bater, ensaiam o passo, respiram fundo, olham para o alto sacudindo os ombros e então me batem – tão levemente que pouco sinto o toque. Escudo o coração desenfreado que aumenta o tom a medida que o toc toc toc de passos do lado de dentro se ecoa próximo de mim.

Eu cedo espaço para um oi tímido e um silêncio demorado. Depois, só beijos. Perdi as contas de quantos beijos vi escondidos atrás de mim. Os risinhos ecoavam pelo jardim enquanto alguém ia embora e alguém ficava. Eu abria e fechava. E continuo nesse vai e vem, embora os beijos tenham ficado cada dia mais escassos.

Minha nova paixão é um menino de dois anos. Eu me encho de alegria quando o vejo descendo do carro e correndo em minha direção. Sem avisar que veio, sem bater, sem esperar. Me empurra para longe e vai gritando sorrisos, abraçando brinquedos e brincando com as pessoas, inflando de vida o meu lado de dentro.

Prazer, eu sou a porta da frente.

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2 comentários:

  1. Cê sabe que tenho aquele carinho especial por esse, né? <3

    "Não há nada no mundo mais viva que uma porta." [Vinícius de Moraes]

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    1. Eu tentei lembrar da música que cê me mandou, mas esqueci ='(

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