deixa estar

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25 de novembro de 2016


Evaporou a euforia do toque. O arrepio dançou sozinho no ar seco até sumir devagarinho, esconder-se nas cortinas e fugir pela janela que dorme aberta, virando nuvem. Perdeu-se o calor do momento, as faces não coram mais, o suor sequer escorre pelas costas nuas e há um vazio de silêncio pesado separando dois corpos que não se tocam.

O azul se sujou de cimento, o sorriso sumiu dos olhos e a doçura não se vestiu das palavras, deixando-as nuas. Não há mais rimas em poemas, sequer restaram poesias. A voz não acarinha as letras, as linhas não ganham melodias e as lembranças não inundam os olhos saudosos. Aquietou-se. A rotina perdeu a cor da retina. O tempo apressou-se, atropelando momentos, sentires e passatempos. Passa tempo. Foi-se o riso, parece eternidades. Pareceres. Não dizeres. Silêncio, silêncio, silencio — minha quietude e o rio que passa debaixo do meu travesseiro.

O quarto se encheu de ausência, o coração encolheu dentro do peito e as palavras ecoaram na memória, rimadas, sentidas, amiga. Amargas. Os olhos são decifráveis, inchados, chorosos. Me amontoei entre as cobertas, permitindo-me escorrer entre as lembranças e afundar na dor miúda. Reergui-me. Amassei a lembrança e joguei-a dentro de uma gaveta, cheia de letras esquecidas... Suspirei. Dobrei-a com cuidado, selei com carinho e guardei-a no bolso...


ORIGINALMENTE POSTADO EM 2010

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