senti tua falta

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15 de dezembro de 2016


Sonhei com você essa noite.

Você tocou minha campainha em uma tarde nublada de domingo. Abri a porta e levei um susto ao ver teu rosto sorridente, tremi dos pés a cabeça. Com a cabeça pendida pr’um lado e a face de quem não vale nada, tu me puxastes para um abraço apertado que, chocada, não correspondi.

— Não vai me convidar para entrar?

Dei passagem. Você se ajeitou na minha cama – que não parecia minha, devo dizer – com as pernas cruzadas, costas recostadas em um milhão de travesseiros – que também não pareciam com os meus. Sentei tímida ao teu lado, coração pulsando normalmente. Você me sorriu, olhando-me dos pés à cabeça, e soprou um “como você está linda”, logo depois que elogiou o novo tom dos meus cabelos, dizendo que assim tinha ficado bem melhor. E então me contou da vida.

Falastes que tinhas encontrado uma nova namorada e que ela te fazia muito bem, mas que tinhas custado a se reerguer e que me odiasses por oito longos meses. Fiquei vermelha, te transformando em gargalhadas, daquelas. Segurasses meu queixo com a pontinha do dedo, tranquilizando um pouco tudo, e voltasses a contar da menina. Dos lugares que vocês foram, sempre com uma frase para completar, do tipo “aquele que tu gostavas“, ou “aquele que fomos naquele certo dia”. Rimos desse passado tão novo, com certa nostalgia. Você contou que tinha parado de escrever, que gostava do novo emprego, que cozinhava pizza toda semana e que o Severino continuava a guardar tua casa — o que me roubou mais sorrisos.

Chorasse. Eu fiquei boba de sonhar tuas lágrimas. Tão palpável, tão real. E eu te abracei e você soluçou, contando sobre tua família e como a menina nova te ajudava, pois tu tentavas parecer inquebrável perto dela e ela nem imaginava que você era todo mole e remendado do lado de dentro. Disse que sentia saudades de despir os sentimentos e que, desde que eu fora embora, você ainda não tinha feito. Se desmontasse inteirinho, com a cabeça no ombro e a fala mansa e, outra vez, fico boba de lembrar o tom da tua voz depois de tanto tempo que não te escuto. Entre choro e riso, você me declamou outro poema, cheio de flor de pera, de árvores pequenas, de colibris, de céu azul, de onda beijando a areia, de pneu riscando asfalto. Me beijastes a testa ao terminar e, tão logo terminou o estalar do beijo, você levantou já indo embora.

Sabias o caminho.

Te acompanhei quieta, tranquila e sorrindo internamente, por reconhecer estar no meio de um sonho e pela delícia daquilo tudo, pela saudade que senti daquilo tudo. Você parou no vão da porta, me puxou para um último abraço e sussurrou em meu ouvido.

— Senti tua falta.

Despertei. E na quietude do quarto escuro, senti tua falta também.



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1 comentários:

  1. Ah, a saudade e como ela pode nos proporcionar coisas maravilhosas. Esse sonho, esses encantos e espantos. Foi um tipo de sinal, a aceitação de forma dócil, porém ilusória eu acho. De qualquer maneira, proporcionou um bem, bem inesperado :)

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