Eu nunca fui fã do escuro

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29 de janeiro de 2017

mafe-probst

[ouça enquanto lê: Owl City - Vanilla Twilight]

Quando eu era bem pequena, pedia para o pai deixar a luz do corredor acessa, e assim ele fazia. Era uma garantia que nem eu, nem meu irmão, pulasse para a cama dele no meio da noite — e não, isso não funcionava sempre. Acho que dormi de luz acesa até os 8 anos. Menos ou mais? Não sei.
(...)

Quando faltava luz a gente brincava com a vela. Fazia uns monstrinhos na parede e o pai assustava a gente com algumas histórias inventadas na hora. A mãe que sofria, porque a gente não ia ao banheiro sozinho no escuro. Era legal, mas dava medo. Eu não gosto muito do reflexo que a gente tem no espelho quando está sob luz de velas. Tenho sempre a sensação de quem tem mais alguém naquele reflexo meio obscuro.

(...)
Um dia, mais velha, eu fui com uns amigos para a praia. Era meio frio e a praia estava vazia. A gente resolveu fazer um luau na areia e depois de algumas horas sem conseguir acender fogo, abrimos mão e deixamos para lá. Tinha uma casinha distante que emanava luz e bastava. Tempos depois, a casinha se apagou também.

Tudo ficou meio taciturno, mas tinha uma lua querendo crescer. Senti minhas pupilas dilatarem, não sei se para enxergar melhor ou se puro reflexo do medo infantil. Talvez um pouco das duas coisas.

Eu deitei na areia fofa, junto com todo o povo. A gente estava cabeça com cabeça olhando para cima. E no meio daquela imensidão escura, fiquei encantada com o tanto de estrelas que o céu pode abrigar... passou o medo, sobrou encantamento.

As estrelas têm medo de luz, concluí. A luz ofusca o mundo, ofusca a gente. Quantas pessoas você deixou de conhecer verdadeiramente por deixar a luz acesa tempo demais?

Agora, sou fã do escuro.

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8 comentários:

  1. "Quantas pessoas você deixou de conhecer verdadeiramente por deixar a luz acesa tempo demais?"

    Pergunta um tanto quanto difícil de ser respondida, é daquelas que são feitas para serem refletidas.
    Até certa idade uma das luzes da casa tinha que ficar acessa pq eu tinha medo, hoje o escuro não me incomoda.


    Boa semana pra ti Mafê!

    Beijos

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    1. Acho que as pessoas não são as mesmas que se mostram, sabe? Na luz do dia, a gente segue padrões e regras, busca ser o que a sociedade espera de nós. Quando a gente se permite conhecer as pessoas para além, talvez elas brilhem muito mais, sabe?

      Boa semana pra ti também :*

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  2. Eu tinha a mesma mania durante a infância. No meu caso, ficava a luz do banheiro acesa e a porta do quarto dos meus pais aberta. Na época o meu quarto ainda não tinha porta e eu simplesmente não aceitava o fato de não ter para onde correr, caso precisasse. Hoje, posso passar horas no escuro. Pouco me incomoda. Inclusive a cortina do meu quarto é preta pra isolar qualquer luminosidade que possa vir.
    Mas sobre as estrelas... Eu jamais poderia supor algo assim. Nunca parei pra pensar na nossa mesquinhez de manter as luzes acesas incessantemente e perder o encanto das nossas vizinhas mais distantes. Um dia, eu estava no sítio de uma vó quando faltou energia. Aconteceu quase a mesma coisa. Primeiro o medo. Depois o deslumbramento. Acho que o medo antecede o deslumbramento. Faz parte do progresso.

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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  3. Por muitos anos dormi assim, com uma luz acessa, pelo medo do escuro e do que nele poderia abrigar na minha mente de criança. Esse medo só foi embora quando, sofri um assalto no meio da noite.

    Sobre as estrelas, é fantástico ter uma vista assim do céu. Adoro quando viajo de carro pela madrugada, dá para ver um céu espetacular.


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  4. Que reflexão linda, você escreveu muito bem.
    Sabe, eu tenho um certo medo do escuro e, como você disse, o reflexo no espelho à luz de velas me dá arrepio. Quando eu era menor eu ficava imaginando o que existia no escuro, sempre fui míope e as sombras desfocada me faziam ficar com muito medo disso.
    As estrelas por sua vez sempre me encantaram, e achei muito legal a conclusão do seu texto. Será que quando queremos muito alguma coisa e fazemos de tudo para conseguir essa "luz" não acabamos afastando algumas pessoas por essa obsessão?

    Beijos!

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  5. Lindas, lindas as suas palavras!

    Quando se está sob um céu aberto e sem lua, a falta de luz é maravilhosa: quantas estrelas...!

    Aquela frase sua, inclusive, "As estrelas têm medo de luz": se estivesse num livro, eu a grifaria, porque olha... incrível.

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  6. Estou aqui tentando entender como ainda não tinha conhecido seu blog! Gente do céu, tudo lindo! O texto ficou perfeito, suas palavras encaixaram muito bem em tudo. Parabéns.
    Um beijo e sucesso.

    www.esteticando-se.com

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  7. Gostei muito do seu texto! Realmente, quantas pessoas nós afastamos por medo do escuro, de algo que não conseguimos ver ou saber o que tem lá. Acabamos acendendo a luz e não vendo o que realmente tem.

    Gostei da reflexão, mas hoje em dia ainda sinto muito medo de escuro. Costumo ficar de madrugada jogando, olhando série ou até escrevendo, e muitas vezes eu preciso ir na cozinha, no escuro. Odeio quando tenho que sair do meu quarto no meio da noite, pois se vou abrir a geladeira consigo ver meu reflexo na porta de vidro da sala e morro de medo de espelhos ou reflexos no escuro, parece que não sou só eu. Quando falta luz, sinto um aperto no meu coração mas tento ser forte e encarar a escuridão. Sobre as estrelas, acho elas lindas e para conseguir enxergá-las, deixo meu medo do escuro para trás. Nunca disse isso em voz alta "Tenho medo do escuro", pois parece coisa de criança. Mas confesso que nunca superei esse medo...


    www.viletoria.com.br

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