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bloquinho do amor


Segundo dia de folia e eu já me apaixonei dez vezes. Primeiro me apaixonei pelo marinheiro de corpo bonito. Ele vestia um short branco, uma camisa listrada vermelha e azul, um quepe e o sorriso mais lindo do mundo. Acho que o sorriso era o melhor da sua fantasia. Era daqueles risos sinceros, de gente feliz consigo mesmo, de gente bem resolvida com a vida. Ele me sorriu bonito, eu sorri de volta e antes do riso chegar ao destinatário, os lábios já estavam envolvidos num beijo de cinema americano que quase parou o bloquinho inteiro.

O carnaval seguiu o fluxo. O bloco seguiu a avenida. Eu segurei as mãos do marinheiro, mas no terceiro passo já o havia perdido. Ele levou uma parte do meu coração e deixou um papel amassado com um telefone rabiscado. Guardei, entre um suspiro e outro, virei o rosto e esbarrei num pirata magrelinho, alto e divertido. Ele usava um gancho na mão direita e tinha os olhos verdes do Hook, de Once Upon a Time. O ganchou me enganchou de jeito e ali eu deixava mais um pedaço de mim e pegava outro telefone para vida.

O bloquinho não parava. Eu me apaixonei pelo bombeiro, que não me roubou beijo. Deixei meu coração nas mãos do Darth Vader, que devia ser proibido de andar sem máscaras, porque ô homem lindo. A música me empurrava direita-e-esquerda-esquerda-e-direita. Eu ia para lá e para cá, me apaixonando e me perdendo. Um policial de mentirinha me prendeu de mentirinha – mas torci para que me prendesse de verdade. As algemas eram de plástico e me arrancaram sorrisos. Curti.

A noite se estendeu, comprida. O sorriso cedia espaço para o cansaço. Meus pés doíam, mas não se entregavam. O dia amanhecia pelas beiradas, muitos foliões já tinham ido embora. Eu amassava uns pedaços de papel na mão, entre serpentinas e confetes. Eu estava mergulhada no glitter. Chovia.

O sol já anunciava chegada. A bandinha já tocava marchinhas antigas, despedindo-se dos poucos que ficaram. Ouvi juras de amor no caminho, entre uma branca de neve (haviam várias) e um chaves (haviam outros vários). Ela era estrangeira, ele tinha sotaque do interior. Nunca mais se veriam de novo, se veriam?

Caminhei de volta para casa, jogando o resto de bebida fora. Estava quente. A bebida, meu corpo estava gelado. Eu tinha me apaixonado dez vezes e amor de carnaval são desses para vida toda. Mas, como todo amor que, durou o tempo suficiente para ser ‘pra sempre’ — e aí, nunca mais.


Comentários

  1. Nunca fui de curtir carnaval fora de casa, apesar de todo ano eu prometer de ir conhecer algum bloquinho daqui de São Paulo, então não sei bem como é a sensação de amor de carnaval, mas seu conto conseguiu passar exatamente o que eu imagino que seja. A música animada, os confetes e as serpentinas ficando grudadas no corpo suada. Mesmo que seja um amor rápido e curto, ainda é uma forma de amor e é lindo só por isso.

    Amei o conto! Bom carnaval pra você Mafê! :)

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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    1. Eu fiz outro conto sobre carnaval que fala sobre esses amores eternos de quatro dias. Acho que no carnaval o povo se entrega sem medo, sem amarras, sem receios. Se jogam, vivem intensamente. Os melhores amores são assim. ♥

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  2. Amores de carnaval são amores de um segundo, mas sempre valem a pena. Rendem ao menos um bom poema! Amei o texto! <3

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    1. Aaaaah, que comentário rimado mais amor ♥

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  3. A cada sorriso se lança em vão uma nova esperança de não solidão.
    GK

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  4. Owwnnnnt. Mafê! VOCÊ É FANTÁSTICAAAA! Amei a simplicidade desse texto. Fiquei imaginando um daqueles momentos em que milhões de coisas acontecem de uma vez só e a gente nem consegue pensar direito. Imaginei ela sendo empurrada de um lado para o outro na multidão de carnaval, e a cada empurrão... uma paixão. Adorei. ♥

    ACESSO PERMITIDO. ♥
    www.acessopermitido.com

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    1. Elci, desse jeitinho! Que sensibilidade linda a tua ♥

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  5. O carnaval é um dos poucos eventos (e feriados!!) que nos proporcionam esses amores de um dia, né? A gente se vê apaixonada tantas vezes, por tantas pessoas, que, no fim, chega a ser incrível saber o quanto podemos ter o coração aberto ♥ Teu texto me fez abrir um sorriso bobo de alegria, sabe? Adorei.

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    1. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaah Kelly!! Que coisa linda de ler. Gosto quando o texto remete um sorriso ou dois ♥ feliz da vida do lado de cá. Beijos

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  6. Oi Mafê! Não sou muito de curtir o carnaval mas seu texto consegue passar romantismo e levesa em cada palavra. Lindo! Espero te encontrar novamente lá no meu cantinho que a propósito tem postagem novinha. Te convido a ir ver! Beijocas!

    Sorriso Jovem | SJ Oficial Fanpage

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