bloquinho do amor

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26 de fevereiro de 2017


Segundo dia de folia e eu já me apaixonei dez vezes. Primeiro me apaixonei pelo marinheiro de corpo bonito. Ele vestia um short branco, uma camisa listrada vermelha e azul, um quepe e o sorriso mais lindo do mundo. Acho que o sorriso era o melhor da sua fantasia. Era daqueles risos sinceros, de gente feliz consigo mesmo, de gente bem resolvida com a vida. Ele me sorriu bonito, eu sorri de volta e antes do riso chegar ao destinatário, os lábios já estavam envolvidos num beijo de cinema americano que quase parou o bloquinho inteiro.

O carnaval seguiu o fluxo. O bloco seguiu a avenida. Eu segurei as mãos do marinheiro, mas no terceiro passo já o havia perdido. Ele levou uma parte do meu coração e deixou um papel amassado com um telefone rabiscado. Guardei, entre um suspiro e outro, virei o rosto e esbarrei num pirata magrelinho, alto e divertido. Ele usava um gancho na mão direita e tinha os olhos verdes do Hook, de Once Upon a Time. O ganchou me enganchou de jeito e ali eu deixava mais um pedaço de mim e pegava outro telefone para vida.

O bloquinho não parava. Eu me apaixonei pelo bombeiro, que não me roubou beijo. Deixei meu coração nas mãos do Darth Vader, que devia ser proibido de andar sem máscaras, porque ô homem lindo. A música me empurrava direita-e-esquerda-esquerda-e-direita. Eu ia para lá e para cá, me apaixonando e me perdendo. Um policial de mentirinha me prendeu de mentirinha – mas torci para que me prendesse de verdade. As algemas eram de plástico e me arrancaram sorrisos. Curti.

A noite se estendeu, comprida. O sorriso cedia espaço para o cansaço. Meus pés doíam, mas não se entregavam. O dia amanhecia pelas beiradas, muitos foliões já tinham ido embora. Eu amassava uns pedaços de papel na mão, entre serpentinas e confetes. Eu estava mergulhada no glitter. Chovia.

O sol já anunciava chegada. A bandinha já tocava marchinhas antigas, despedindo-se dos poucos que ficaram. Ouvi juras de amor no caminho, entre uma branca de neve (haviam várias) e um chaves (haviam outros vários). Ela era estrangeira, ele tinha sotaque do interior. Nunca mais se veriam de novo, se veriam?

Caminhei de volta para casa, jogando o resto de bebida fora. Estava quente. A bebida, meu corpo estava gelado. Eu tinha me apaixonado dez vezes e amor de carnaval são desses para vida toda. Mas, como todo amor que, durou o tempo suficiente para ser ‘pra sempre’ — e aí, nunca mais.


comentários pelo facebook:

11 comentários:

  1. Nunca fui de curtir carnaval fora de casa, apesar de todo ano eu prometer de ir conhecer algum bloquinho daqui de São Paulo, então não sei bem como é a sensação de amor de carnaval, mas seu conto conseguiu passar exatamente o que eu imagino que seja. A música animada, os confetes e as serpentinas ficando grudadas no corpo suada. Mesmo que seja um amor rápido e curto, ainda é uma forma de amor e é lindo só por isso.

    Amei o conto! Bom carnaval pra você Mafê! :)

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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    1. Eu fiz outro conto sobre carnaval que fala sobre esses amores eternos de quatro dias. Acho que no carnaval o povo se entrega sem medo, sem amarras, sem receios. Se jogam, vivem intensamente. Os melhores amores são assim. ♥

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  2. Amores de carnaval são amores de um segundo, mas sempre valem a pena. Rendem ao menos um bom poema! Amei o texto! <3

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    1. Aaaaah, que comentário rimado mais amor ♥

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  3. A cada sorriso se lança em vão uma nova esperança de não solidão.
    GK

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  4. Owwnnnnt. Mafê! VOCÊ É FANTÁSTICAAAA! Amei a simplicidade desse texto. Fiquei imaginando um daqueles momentos em que milhões de coisas acontecem de uma vez só e a gente nem consegue pensar direito. Imaginei ela sendo empurrada de um lado para o outro na multidão de carnaval, e a cada empurrão... uma paixão. Adorei. ♥

    ACESSO PERMITIDO. ♥
    www.acessopermitido.com

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    1. Elci, desse jeitinho! Que sensibilidade linda a tua ♥

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  5. O carnaval é um dos poucos eventos (e feriados!!) que nos proporcionam esses amores de um dia, né? A gente se vê apaixonada tantas vezes, por tantas pessoas, que, no fim, chega a ser incrível saber o quanto podemos ter o coração aberto ♥ Teu texto me fez abrir um sorriso bobo de alegria, sabe? Adorei.

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    1. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaah Kelly!! Que coisa linda de ler. Gosto quando o texto remete um sorriso ou dois ♥ feliz da vida do lado de cá. Beijos

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  6. Oi Mafê! Não sou muito de curtir o carnaval mas seu texto consegue passar romantismo e levesa em cada palavra. Lindo! Espero te encontrar novamente lá no meu cantinho que a propósito tem postagem novinha. Te convido a ir ver! Beijocas!

    Sorriso Jovem | SJ Oficial Fanpage

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