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Na boa? Cansei


Fazia tempo, muito tempo, que eu não mastigava a raiva como quem mastiga um chiclete ruim. A descarga de adrenalina percorreu meu corpo inteiro, as pernas começaram a tremer e as mandíbulas se travaram, pressionando os dentes com força desmedida – algo que me rendeu uma dor de cabeça ao acordar.

A raiva durou pouco mais de dois minutos e trinta e sete segundos. O sal queimou nos olhos, deixei escorrer uma lágrima ridícula e continuei massacrando meus dentes. Senti ódio da raiva que pulsava. Senti ódio por chorar. Senti ódio por ir dormir bagunçada, agitada e com a mandíbula travada (bruxismo, saca?). Eu não queria esses sentimentos dentro de mim, sabe? Eu achava que merecia mais – ainda mais em tempos tão difíceis.

TERAPIA


Há de querer ser leve, assoprada, bailarina. Dente-de-leão dançando no vento, voando sem pressa e sem saber aonde vai — e aonde quer — chegar. Frágil menina forte, que disfarça a fragilidade e os medos infantis nos risos de mulher suficiente, competente e independente, escondendo por detrás dos passos firmes a carência, as paixões e as necessidades, que vão muito além de um copo d’água e de comida frequente.

Não me venha com desculpas tortas

Eu poderia começar citando o maior abandonado Cazuza, cantando desafinada que mentiras sinceras me interessam, mas as coisas não são bem assim. A verdade é que estou farta dessas falsas verdades que você conta, cada vez que vem com as mãos no ar, rendendo-se e me presenteando com qualquer desculpa. É sempre o trânsito que está caótico. É sempre o trabalho que está cheio. É sempre os amigos que precisam de uma companhia para uma cerveja. E eu ali, esmagada entre um horário vago e outro, escondida entre teus lençóis, catando migalhas do teu amor por qualquer canto dessa casa vazia.


Mudança de hábitos


Comecei a cuidar do corpo. Um pouco por questão de saúde, outro tanto por estética mesmo. E não, não é porque a sociedade impõe um padrão absurdo. É por mim. É porque eu quero me sentir bem comigo mesma, é porque eu sempre gostei de um padrão magrelo – porque eu sempre fui seca, até a idade chegar.

Estou pensando, incontáveis vezes, se devo escrever isso que estou aqui escrevendo. Eu sei que muitos vão me apontar o dedo dizendo que eu estou louca, dizendo que é errado eu não me achar magra (eu me acho ‘magra’, mas quero mais), falando de outros padrões que são diferentes dos meus. Mas eu queria poder falar abertamente sobre as vontades que eu tenho, sabe?


Talvez seja um relato de maturidade. Ou não.


Não sei implorar para caber num espaço que, efetivamente, não me cabe. E nem me refiro à espaços pequenos, apertados e claustrofóbicos: me refiro àqueles lugares onde a presença simplesmente não é bem vinda. Antes eu até tentava chamar atenção, fazia malabarismo com meus sentimentos para ver se, num acaso ou sorte, eles eram notados. Hoje não. Não mais.

Talvez esse texto seja um desses relatos de maturidade. É provável? É. Mas... honestamente? Não quero rotular. Cansei de tentar dar rótulos para tudo o tempo todo. Essa é uma mania muito humana – e completamente desnecessária. Eu só quero expor, porque mesmo eu não forçando espaço, mesmo eu não fazendo tanto malabarismo com meus sentimentos, mesmo eu não buscando por atenção, ainda dói – e mais.

Jogue fora o que não te cabe mais


Odeio acúmulos. Não sei lidar com excessos, com coisas acumulando poeira, com histórias guardadas e ocupando o espaço de gavetas, armários e coração. Não. Prefiro o pouco. Vira e mexe paro a rotina para me desfazer de tudo e deixar a casa e a alma leve. Os olhos agradecem, depois. O coração, que pulsa tranquilo, também.

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