QUANDO FOI QUE ME TORNEI ADULTA?

|

21 de fevereiro de 2018


O uniforme era azul marinho com uma única faixa amarela na lateral, rabo de cavalo baixo, o cabelo castanho carregava do lado direito uma uma pequena presilha de flor cinza — daquelas de feltro mesmo — com uma flor rosa menorzinha, os óculos de moldura prateada combinavam com o aparelho que fazia o sorriso brilhar ainda mais. Enquanto eu balançava de cá pra lá não pude deixar de reparar naquela menina cheia de alegria no olhar. "Agora mãe?", ela perguntou querendo saber se já podia dar sinal para o ônibus parar no próximo ponto. "Sim, pode apertar", respondeu a mãe sem ver o estado de êxtase que tomou conta da filha no instante em que recebeu o aval para apertar um simples botão, indicando ao motorista que desceria no próximo ponto. Em seguida ela dançou entre as barras de ferro na frente da porta como se tivesse acabado de realizar um grande sonho. O ônibus parou, a porta se abriu, a menina e a mãe desceram e eu fiquei, segui o caminho de todos os dias.

Perdi as contas de quantas vezes apertei o mesmo botão, com olhos cansados e expressão vazia. Pensei no meu tempo de criança e em cada pequena alegria que um dia inteiro era capaz de me proporcionar. Lembrei das vezes em que pude girar a chave na porta de casa — "como gente grande", eu pensava —, das outras em que pude levar a correspondência ou pude acender o fogo do fogão. Eram aventuras arriscadas ou que exigiam enorme responsabilidade e eram todas “coisas de adulto”. Eu queria crescer. Eu queria ficar mais velha. Eu queria poder fazer o que eu quisesse, porque é isso que criança acha que a gente faz: tudo o que sente vontade. Sem pai ou mãe pra dizer "não pode", ou "você ainda não tem idade". Eu queria ter idade e eu não fazia ideia de que ganhar mais anos na conta, na verdade, significava perder um tanto da magia que nos faz sorrir ao apertar um simples botão.


Os anos passaram, a infância passou, a adrenalina das pequenas aventuras deu lugar às preocupações de “gente grande”, às contas no fim do mês, à rotina chata que envolvia depender do transporte público e, em grande parte do dia, desejando estar em qualquer outro lugar. A idade que eu tanto desejava chegou. Sorrateira, silenciosa, avassaladora. Não sei bem quando foi que me tornei adulta, mas hoje, vendo aquela menina, me dei conta de que tal fase não se dá pela idade marcada no documento, pelo nível de ensino ou pelo emprego que conseguimos. Ser adulto não tem nada a ver com abrir e fechar a porta de casa ou carregar as correspondências. Está longe de ter a ver com o fogão aceso ou assinar o nome com caneta. Ser adulto tem mais a ver com a falta do brilho, o medo, a emoção, a vontade de sorrir e de ver o lado divertido de cada ação diária, mesmo que banal. Ser adulto, talvez, tenha mais a ver com o que se perde do que com o que se ganha.

Hoje aquela menina me devolveu um tanto do brilho que perdi não-sei-quando. Hoje eu não quis apertar o botão. Levantei do banco e puxei a cordinha que também avisa ao motorista que eu vou descer. “Agora eu sou gente grande, eu alcanço” – pensei, deixando escapar um sorriso largo. Desci as escadas como se estivesse descendo degraus de salto, num grande salão, onde acontecia qualquer festa chique. Girei a chave e abri o portão como Alice descobrindo o País das Maravilhas. Hoje eu esqueci de ser adulta por alguns segundos e, confesso agora, foram os momentos mais lindos do meu dia.

comentários pelo facebook:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...