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A FUGA DA FLOR


Abri os olhos devagar, bem depois de já ter consciência do dia, sem coragem para enfrentar a luz que ardia meu astigmatismo. Na medida em que minhas retinas foram se acostumando com a claridade, ele se materializou. A pele clara se deixava iluminar ao longo das costas largas que subiam e desciam com suavidade, acompanhando o arfar da sua respiração e ocupando boa parte da cama de solteiro. Ri no canto dos lábios e entendi porque sentia a coluna doer.

Escorreguei para debaixo do seu braço, tomei parte do travesseiro e fiquei ali, nariz com nariz – os olhos aproveitando a inocência do sono para percorrerem intrusos cada traço do seu rosto. Tentei memorizar a pintinha negra abaixo do olho esquerdo e percebi que ainda não havia notado o quanto seus cílios eram longos. Passeei por sua barba por fazer, como criança solta na grama. Da boca semiaberta e amassada pelo encontro com o travesseiro, eu podia ver com perfeição como se formava o desenho do seu sorriso. De repente, sufoquei a sensação de que poderia morar ali.

Não sei se por ousadia ou encanto, demorei-me demais. Meus olhos para lá e para cá fizeram cócegas em sua pele e então foi fatal: ele acordou. As sobrancelhas arquearam por um momento, num nítido espanto por me ver tão perto, com o castanho dos meus olhos lhe encurralando. Ele sorriu, toda a barba do seu rosto se mexendo, o vento esvoaçando a grama. Esparramei-me nela à vontade, aceitando a brincadeira, sentindo-me criança. Seu corpo seminu me puxou para perto e enroscou-se no meu – e então voltei a ser mulher. E ali naquela viela de poros e pelos, vi que não podia mais me prolongar. Havia chegado a hora, eu estava sem saída. Não quis mais encará-lo. Afundei em seu pescoço como quem cai no fundo de um poço. Só percebi que minha voz estava trêmula quando deixei escapulir:

– De que você mais sente medo?

– Medo? Não sei. De perder, eu acho.

– Perder no pôquer para uma mulher realmente deve ser uma afronta para o ego masculino – brinquei, já arrependida de ter iniciado aquela conversa. Ele riu.

– Perder pessoas, principalmente. E você, de que tem medo?

– Barata.

Ele riu de novo, mesmo sabendo que não era mentira. Contra a minha vontade, levantou o meu rosto à altura do seu. Furiosa, rezei em silêncio para que as lágrimas que eu sentia me queimando por dentro ainda não tivessem à mostra.

– E você, de que tem medo? – insistiu.

– De ganhar.

– Ganhar o quê?

Pessoas, principalmente.

Dessa vez ele não riu. Foi a sua vez de me olhar por completo, sem pudores. Mirou-me fundo nos olhos. Será que havia alcançado minha alma? Desvencilhei-me.

A gente não perde aquilo que não tem. – comecei. – É por isso que eu tenho medo de ganhar. Já não suportaria mais nenhuma perda.

E como você pode saber se vai perder, se não se permitir ganhar?

– Eu não conheço o futuro, é bem verdade, mas conheço as pessoas. Elas são assim: chegam, plantam algumas flores, deixam crescer espinhos e vão embora.

E então foi silêncio. Percebi que suas mãos haviam soltado meu rosto quando me senti afundando no travesseiro, e abracei o alívio de poder entregar uma lágrima escondida ao lençol. Depois, levantei-me e pus-me a colocar o vestido que ficara caído aos pés da cama na noite anterior.

– É isso o que você vai fazer então? Ir embora?

Aquilo foi como uma pedrada em minhas costas. Feriu. Não olhei para trás – não poderia.

– Quero guardar apenas o teu perfume. Jamais suportaria os espinhos.

Saí apressada e deixei a porta bater de qualquer jeito, com um estrondo muito maior do que o esperado. Corri. Corri com toda a força que eu possuía, sentindo o vento espalhar as lágrimas quentes por minha face. Parti sem saber se fugia dele ou desse medo algoz de gostar de alguém outra vez. Corri para sentir vivas as minhas pernas e provar para mim mesma que eu era livre. Corri com a teimosia de uma flor que, por um momento, esquece de que também precisa de raiz.

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