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Amor é vintage, baby

giselle-f

Um dia o pouco de bunda que a vida me deu vai cair, isso é um fato. Outro fato é que cairão também os peitos nos quais você gosta de deitar pouco antes de se virar de costas para dormir — li em algum canto que casais que dormem de costas um para o outro tendem a durar mais, por confiarem mais um no outro —, a pele do rosto que você tanto gosta de observar em silêncio ficará mais flácida e terá poucas ou muitas manchas, a das olheiras vai começar a saltar e cobrir levemente minhas bochechas que você gosta de fazer corarem. Você sabe disso, não é? Sabe que minha barriga, onde você gosta de apoiar o braço durante alguns minutos no meio da madrugada, vai ficar cada vez mais mole e talvez eu sequer aguente o peso do seu braço, certo?

Me diz que sim.

Diz também que sabe que meus pés, já não tão fortes, ficarão cada vez mais lentos e frágeis, me impedindo de ficar de pé todas as vezes em que eu pensar em levantar mais cedo pra te fazer um café. Ainda assim, diz que sabe que tentarei do mesmo jeito, apesar dos pesares, pelo simples prazer de ver teu rosto também marcado pelo tempo, me sorrindo bom dia. Um dia as mãos que você gosta que te acariciem toda noite, podem não mais ser tão macias ou tão sensíveis. Talvez o carinho que você tanto gosta de receber seja menos frequente ou apenas mais lento, mas farei o possível para que ele nunca deixe de existir, você sabe né?

Espero também que nunca se esqueça que, apesar de o meu corpo mudar, dos anos passarem, da idade chegar e de toda essa capa que me envolve não ser mais a mesma, eu ainda te amarei com todas as minhas forças. Eu ainda farei questão de segurar sua mão enquanto caminhamos e te beijar a testa todas as manhãs. Espero que saiba que ainda ansearei pelas nossas conversas que varam madrugadas — mesmo que não consigamos mais ficar acordadas até o dia amanhecer, tanto quanto desejarei que cada minuto dure dois ou mais, apenas para poder passar mais tempo ao seu lado. Soa piegas, eu sei, mas quem foi que disse que o amor é moderno? Amor é vintage, baby. Amor é old school. É antiguidade. Amor não é tecnológico, é pergaminho. Amor tem rugas, manchas, tem a pele mole e o corpo frágil. Amor é um senhor idoso que caminha devagar e tem a paciência de mil monges tibetanos, a sabedoria de todos os mestres que já existiram, a precisão de cem ninjas e o carinho de duas mil mães. Amor é velho, embora infinito. Nós é que somos aprendendo a conhecê-lo pouco a pouco.

Então diz pra mim que irá permanecer por aqui, descobrindo amor onde nem imaginávamos que existia, enquanto nossa pele cai e nossa fala fica mais lenta. Enquanto nossos passos diminuem e nossos olhos não se abrem com tanta rapidez. Fica, pra provar pra nós mesmas que o tempo é apenas poeira. E nós... Nós somos vento. E ele nunca para.

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