Assim você morria aos poucos aqui dentro

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7 de fevereiro de 2018

brunna

Foram tantas as vezes em que tentei me enganar e fingir que nada acontecia em meu interior, que meu coração não se machucou, que a mente continuava sã e calma como sempre foi, que tudo que se passava ali era bom, que nada me perturbava a calma. Me pergunto por que fazia isso comigo ao invés de retirar a venda proposital que você me ajudou a colocar enquanto partia, enquanto vagarosamente saia pela porta dos fundos ou pela janela que esqueci de trancar certa noite e nunca mais apareceu para aquele café da manhã, aquele que incendeia a cozinha com aquele cheiro delicioso de café matinal que tanto me fazia arrancar sorrisos com o presságio de que o dia seria bom.

Mas acontece que uma hora o coração avisa, ele grita para que mergulhemos no despertar e quanto mais tardio é este mergulho, mais dolorido é o impacto. E assim eu fiz, e assim eu enxerguei que você estava indo, que há muito tempo a esperança de sua volta já havia se cansado e eu insistia para que ela permanecesse. Percebi que para nós não existia aquilo de o que é seu retorna, porque você nunca foi meu, porque não somos de ninguém a não ser de nós mesmos e mesmo que eu quisesse acreditar nisso, não era possível, nunca foi.

Aos poucos meu coração o perdeu de vista, seu olhar já não era tão nítido como quando eu virava e você me observava acordar, enquanto seu olhar sorria mesmo quando seus lábios não. Aos poucos seu toque já não era mais memória, se tornou apenas como aquela informação das minhas matérias da faculdade que eu não gostava tanto e batalhava para conseguir lembrar vagarosamente. Aos poucos seu tom de voz se confundiu com os dos atores dos filmes que eu assisto aos sábados à noite. Aos poucos você foi, e ia enquanto eu não via, enquanto eu não aceitava sua partida.

Aos poucos eu já não te quis lembrar e briguei tanto, mas tanto comigo e todos ao redor. Aos poucos eu não quis, pois quando percebi, doeu de tal forma que eu não queria mais reviver, a queda machucou de forma que hoje transformou-se em cicatriz, que permanece aqui para que eu nunca esqueça, para que eu não deixe de me enxergar em meio as tempestades. Aos poucos eu não quis mais sentir a sua falta, e assim você se perdeu aqui dentro de tal forma que eu já não o vejo mais.

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