icones sociais

É POSSÍVEL MUDAR O LAR DE LUGAR?


Dia desses me peguei pensando na casa nova. Você estava deitado no sofá vendo jornal, eu estava enrolada no trabalho porque, como você mesmo descobriu recentemente, eu sou boa na arte da procrastinação (embora tenha melhorado um tanto). Eu parei o que estava fazendo no notebook e fiquei te olhando, deitado naquele sofá escuro, meio que cochilando, meio que prestando atenção e peguei pensando na casa nova.

Suspirei.

Olhei de você para o tom das paredes, para os detalhes dos móveis antigos, para as memórias tão nossas que circundam cada espaço daquela sala. Apertei o couro da cadeira e senti a textura da cortina, ao fechar a janela para que nenhum vizinho colocasse os olhos dentro da rotina. Eu olhei você deitado naquelas almofadas proibidas — aquelas que eu cansei de pedir para não deitar em cima porque são ruins de desamassar — e pensei na casa nova.

Confesso que me deu um mini ataque de pânico e uma ansiedade imensa. Eu sentia o cheiro do lar ali, embora ele sempre fosse compartilhado. Tinha um bocado da nossa vida, da nossa rotina, das nossas coisas espalhadas — coisas demais, até. Tinha histórias com amigos, tinha refeições no chão da sala, tinha um colchão de solteiro que já abrigou nós dois, quando a cama não precisava ser grande demais porque cabíamos no mesmo espaço.

Tinha cheiro de comida que deu certo, quando aprendi a pilotar as panelas. Tinha cheiro de comida queimado, quando eu esquecia a panela no fogo e tinha cheiro de pizza, de hambúrguer, de comida chinesa quando a gente tinha fome demais e preguiça de cozinhar também em demasia (ou quando eu errava o tempero da comida e, bem, não dava para comer).

Eu ouvi o barulho da porta batendo, a tensão da briga. Mas tinha mais som de riso, de música, de panela de pressão fervendo. De riso de criança, quando a casa ficava cheia nos finais de ano. Eu vi a bagunça, eu vi a ordem quando tiramos um pouco de coisa e deixamos as outras mais nossa cara. Eu vi tanto da gente ali e fiquei pensando na casa que está por vir e me deu um mini ataque de pânico enquanto eu te via deitado no sofá, meio acordado meio cochilando, e senti a ansiedade pulsar ao pensar na casa nova, que parecia algo tão distante, mas que já me assusta por ser tão breve, pelo tempo passar tão rápido e nos engolir em cor de madeira, mesa assim ou assada, cubas, torneiras e lustres.

Eu vejo a porta de casa quase se abrir.
E outra porta de casa quase se fechar.

Será que a gente se mudando, conseguiremos levar o lar?

Instagram