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Do mundo e da vida

fernanda-amorim

Seis da tarde, ônibus lotado e o trânsito virado num caos, típico de sextas-feiras chuvosas. Terezinha estava sentada no último banco individual da fileira esquerda, cabeça colada na janela, portando um fone de ouvido verde, o qual tocava a música trilha sonora da sua vida.

José estava na livraria desde às quatro e cinquenta, em dúvida de quais levar, quantos levar e se levar. Nunca soube escolher um halls na cantina do colégio, quem dirá escolher as palavras cabíveis de se ler naquele momento.

Terezinha lamentava e questionava “os porquês” à vida. Não entendia bem ao certo porque nunca deu certo. Sempre amou demais, se entregou demais, foi demais para os de menos. Ainda assim, tinha fé na vida e via coragem no amor.

Seu último relacionamento atingiu todas as expectativas possíveis que ela nunca ousou ter, aquelas negativas. Ficou cega na vontade de companhia, perdeu-se na figura que repousava ao seu lado na cama todas as noites de fim de semana. Questionava-se sobre o amor, queria descobrir sobre a vida.

José pouco se importava com as respostas, queria mesmo era saber de perguntas. E ele era cheio delas. Tão cheio que sua mente era a única companheira nas noites de sextas, embaladas por um copo de cerveja. Não se importava com aparências e tanto fazia o mundo lá fora. Queria ser dono de si e buscar a vida.

Foi de tanto buscar que Terezinha se quebrou. Nunca quis, só fez. Fez tanto que se perdeu nos próprios caminhos que traçou. Apesar disso, carregava consigo, diariamente, a certeza e o orgulho de ser quem era, de ser perdida em si, mas dona de suas vontades.

Foi perdido que José deixou a livraria sem nenhum livro debaixo dos braços. Não se importou das horas que perdeu escolhendo os nadas. Para ele, o nada, significava muito. O nada significava o que ele não era e, apesar de não saber quem de fato era, saber quem não era já estava de bom tamanho.

Terezinha parou no ponto da esquina, aquele que ficava em frente da pracinha que ela brincava quando criança. Era o seu lugar favorito na cidade. Ali ela se encontrava e recordava sempre do bolo de cenoura que tinha no café ao fim das tardes, exausta brincando nas balanças daquela praça.
As balanças! Elas combinam perfeitamente com sua alma aventureira de vontades e coragens.
As balanças! Elas combinam perfeitamente com as confusões de José, que iam e voltavam, constantemente, em seus pensamentos.

José virou na esquina, passando pelo ponto que ficava na frente da pracinha de Terezinha. Entrou na cafeteria ao lado, pedindo o mesmo de sempre.

Terezinha sentiu a chuva engrossar e resolver ir para casa. O frio que as gotas traziam não combinava em nada com seu coração acelerado em busca de um novo porto. Mas café, ah, esse sim combinava perfeitamente.

E foi com um copo de café expresso extremamente forte – como a alma de Terezinha — que José saiu correndo as presas da cafeteria, viu a chuva engrossar e nunca gostou de ficar carregando sombrinhas.

Terezinha apertou o passo e deu um pulo ligeiro para escapar da enxurrada que um carro levantou ao ultrapassar perigosamente um ônibus que ia com cautela. Nesse momento José não estava nada cauteloso e sua pressa esbarrou no pulo da moça, derrubando todo o seu café naquele corpo magro, moldado por cabelos encaracolados que chegavam à cintura.

Talvez o calor do café tivesse acendido uma faísca. Mas gosto de acreditar que a faísca se acendeu com a intensidade de suas almas. Eram dois corpos estranhos encontrando-se pela primeira vez. Dois corpos que, estranhamente, davam sinal que já haviam se esbarrado em outros períodos. Seus perdidos se encontraram embaixo da chuva, que mais parecia sol de janeiro naquele momento, final de maio.

Ele, que nada sabia, também não sabia seu nome, mas soube que era ela. Ela que tanto buscava, soube que encontrou. E encontraram-se na vida, no amor. Encontraram-se nas incertezas e dúvidas que compartilhavam sem saber. Encontraram lado a lado, frente a frente, a vontade de fazer dar certo, de fazer ser certo e de serem, juntos, a definição de amor.


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