para um aquariano: a arte do desapego

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1 de fevereiro de 2018


Eu olho para você e já o sinto indo. Seus olhos têm aquele quê de partida, um azul de final de horizonte. Ser transitório fez de você um pedaço de chegada e outro de adeus. É lar até dizer que toda distância do mundo deve ser percorrida. Eu não consigo mais enxergar grandeza na espera, nesta sensação de abandono eminente que acompanha o tremor das mãos dadas, tão logo soltas. Mero costume de quem é memorável, mas nunca soube se fazer permanente.


É presente, sem atrever-se futuro. Eu sinto uma dor que não é minha, nem sua, que só pode ser de nós dois quando juntos. A falta de coragem fez de mim expectadora do rio que vai, enquanto sua falta de coragem o fez corrente que flui sem matar a sede; que fica pouco tempo para ser pertencente e que ama as folhas e os frutos sem se preocupar com as raízes. Ainda que água seja sempre água e vinho seja sempre vinho, o amarei feito milagre, de forma que só quem é humano amaria.

Escolher ser solitário é também impor aos outros a solidão. Esta tem dois lados: só a sente quem já teve companhia e que a perdeu. Quem vai, deixa. Consinto que vá mesmo assim. Lutar contra sua natureza é como tentar impedir a mudança de estações ou mesmo de fases da lua. É de todo incerteza. Demais para se assumir errante? Se você tem de ir para ser o que realmente é, vá sem grandes remorsos. Ficar faz parte de mim. Não torne os erros antigos maiores do que são. Erros serão erros à medida que dermos a eles importância. Os beijos de fuga são despedidas silenciosas, de quem pouco se arriscar a chorar. Ter duração de instantes faz parte da sua beleza natural.

É bonito enquanto passageiro.

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