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PARA UM TAURINO


Quando estou com você sinto como se estivesse escrevendo: é esta sensação de total pertencimento. As palavras saem de mim feito feras dóceis e, de certa forma, indomáveis, numa dicotomia pouco racional. Os versos transcendem meu livre arbítrio e se esvaem dos dedos antes que eu tenha a chance de escrevê-los. Quando te vejo, o tempo se faz estático naquele segundo de pausa que antecede qualquer grande decisão. Entre a causa e o efeito. Entre o arremesso e a queda.

De repente tenho pressa! E só a tenho por não possuí-lo. Não no sentido dominador da palavra, deve saber. Quem já tem alguém não se apressa, pois a procura não mais tortura a alma. É o encontro que se revela na calma de quem não mais espera o que já se tem. Queria poder explicar-lhe melhor, mas é algo que vai além do meu entendimento de mero ser abstrato. Por um momento seu sorriso me basta. É bom ou é triste contentar-me com tão pouco?

Passaram-se vários dias, dentre muitos, o seu aniversário. E eu não tenho o direito de sentir saudades. Talvez nem mesmo de sentir, ainda que toda minha incredulidade em amor à primeira vista tenha se extinguido desde o contato mais remoto. Eu sei, no tempo dos relógios e dos jogos, é muito cedo para falar de amor. Falemos de cores, então. Analogia sincera e menos amedrontadora de um coração por vezes cansado, por vezes esperançoso.

Éramos o encontro de duas cores primárias que juntas formavam um verde imaturo com potencial de fruta doce. Eu era também de um vermelho vivo e voluptuoso e você de um azul suave, tristeza estrangeira que a você não pertencia. Da nossa mistura surgiu um roxo vibrante, que foi sendo modificado até outro de natureza escura, já maturada. As pinceladas secaram-se em camadas rugosas, semelhantes às marcas de expressão que vêm juntas às experiências. Da tinta fez-se tela. Do acaso uma escolha.

Poderia dizer-lhe mais, mas seria injusto demonstrar tamanho afeto sem saber se compartilhamos dos mesmos desejos. Só lhe peço que se tiver motivos para ir, vá sem deixar rastros pelo caminho. Fragmentos são mais cruéis que o próprio nada. E se ficar, não se assuste com meu exagero linguístico. Poetas costumam ser ruins com as escalas. De qualquer forma, estarei sempre aqui, sempre em mim.

Amando ou escrevendo sobre o que já não posso amar.


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