POESIA CRUA DO NOSSO INTERIOR

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1 de fevereiro de 2018


A madrugada estava fria e o seu corpo, tão quente, me prendia envolto àquela coberta fina de algodão. Seu cheiro era perceptível, forte, amadeirado. Na verdade, eu não sabia identificar as notas certas do perfume, mas eu queria ficar ali sentindo. Eu sempre acordo primeiro e naquela noite não foi diferente, depois de toda a intensidade do contato, eu despertei de um sono leve. Ao lado da cama, aquela velha cadeira e uma mesa com meu caderno. Ali morava um pedaço de mim, me sentei e fiquei imóvel te observando. Eu gosto muito de olhar seus detalhes, entendo cada expressão sua, acordado, dormindo, sério ou sorrindo.

Fui desenhando poesias nas linhas do caderno, lembrando de cada gesto que começou na rua, naquele bar, num olhar sincero. Eu me prendi a liberdade que era estar em seus braços, eles me eram seguros. O toque na mão me deixou atenta, o seu sorriso me deixava a vontade — e até mesmo com vontade. Era um movimento regular de dentes alinhados e brancos que não foram forçados por uma foto em qualquer rede social. Você, no seu jeito simples, estava ali, sem mais, me olhando tão intensamente que, por vezes, achei que via mais do que apenas o meu rosto.

Aquilo me despertou o desejo e, não me ache tola, eu já imaginava o sabor que teria seu beijo e eu sabia que o queria percorrendo meus lábios e o corpo, por toda a vida. Foi uma poesia intensa, a melhor que meus pensamentos conseguiram produzir, dessas que ultrapassam o contato físico, que me deixam escrever cada linha como se não houvesse qualquer outra expressão possível, senão o prazer das mãos se enlaçando, a troca, o medo e o desejo, tudo junto, sem necessidade de palavra alguma, em todos os movimentos e sentimentos, a gente se encaixou.

Minhas mãos, agora enrugadas pelo tempo, ainda tecem essas palavras. Sinto esse mesmo desejo quando acordo na madrugada e sento na velha cadeira, observando seu sono pesado.Talvez você esteja cansado, mas não me nega seu toque de afeto, que me levou ao céu. Toda noite é a melhor noite ao seu lado, no sagrado amor, profanado pelo que não se pode dizer em voz alta, nos gemidos e sussurros. Um perfeito equilíbrio de dois corpos que se pertencem, pois as almas se reconheceram. É assim que te escolhi e escolho todos os dias.




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