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UMA MALA DE SAUDADE


Olhei o relógio naquela noite, a insônia, para variar, me acompanhava nos pensamentos sobre a vida. Estava frio e eu não gosto de frio, era uma das coisas que você sabia sobre mim. Durante anos de convivência, brigas e os pedidos de perdão, éramos como dois irmãos — e irmãos brigam, ficam de cara feia, mas no final sempre estão ali, juntos, sem rodeios. Eu não entendia a situação, honestamente eu pensava cada momento tentando analisar da melhor forma possível de como a gente tinha chegado nesse ponto. Como não conseguimos pedir perdão novamente e continuar em frente da mesma maneira de quando a gente era criança.

A ofensa foi maior?

Ou será que a gente cultivou um sentimento diferente do que nossa proximidade permitia? Eu podia ficar horas conversando contigo e aquilo nos fazia muito bem, sem necessidade de cobranças, a gente continuou ali um para o outro, para o que fosse preciso. Mas de repente, como se as coisas não fizessem mais sentido, o tempo se encarregou de nos afastar. Não te reconheci mais, minhas ideias já não eram o complemento das suas, nossa amizade se tornou algo frágil, propensa a se quebrar ao menor ruído que pudesse acontecer. Te vi partir. Normalmente as pessoas vão embora de um lugar para outro, mas você já ouviu falar de pessoas que vão embora da gente? Acho que esse é o pior jeito de ir embora, quando você deixa alguém fica um vazio, e isso cabe em qualquer tipo de relacionamento com amigos, família ou um afeto.

E aquele vazio é difícil de cicatrizar, mas eu não podia te pedir para ficar, foi uma decisão sua, o livre arbítrio te concedia tal poder. Eu até tentei algumas vezes te fazer ficar, mas nunca seria a mesma coisa. As conversas já não tinham a mesma intensidade e sempre faltava um final, sempre tinham três pontinhos pendentes dos dois lados. Crescemos e não soubemos lidar com nossas diferenças.

Te ver partir foi uma das coisas mais difíceis que já me aconteceram, mas como você mesmo dizia, eu ainda sou muito jovem, muitas coisas vão me acontecer e talvez sua ida não seja mais classificada como muito difícil de lidar. Não sei se isso um dia vai mudar, no momento é o que me machuca, te ver pegar as malas e saber que não haverá retorno. Ou haverá? Talvez não seja um adeus, talvez possamos organizar um até mais. Quem sabe lá na frente, quando e se você retornar, esse acontecimento me seja tão maluco e complicado quanto agora.

Saudade é um bicho esquisito, a gente não aprende a lidar. A gente coloca ela dentro daquela mala velha no guarda-roupa, na esperança de nunca ter que mexer, até que um dia é preciso viajar, e aí você abre a mala, e ela continua ali, pesada, difícil de suportar. Não enfraqueceu, não ficou mais fácil de carregar. É isso que acontece quando as pessoas vão embora da gente, fica uma mala cheia de saudade, e no final da noite um travesseiro cheio de lágrimas.


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