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A GENTE NUNCA ADMITE


Olhando para o nada essa manhã, enquanto todos ao meu redor encaravam o relógio para ver se faltava muito tempo para o horário de ir embora ou estavam falando tão alto que não conseguiam ouvir as pessoas que estavam do seu lado, percebi que minhas mãos estavam geladas. Fitei-as num segundo e pude perceber que estavam quase roxas de frio, mas, mesmo assim, continuei a escorar meu rosto com elas. Mãos que contrastavam com a escuridão do local e as luzes coloridas que piscavam. Mãos quentes. Nada parecida com as minhas eram as tuas, mas lembrava delas. Levei a ponta dos dedos até a boca sem perceber e realmente fiquei desconfortável com o calafrio que senti ao constatar que estava quase 0° lá fora.

Dois dias antes das coisas começarem a não fazer sentido eu estava sentada com alguns amigos em um bar. Tocava uma música ao fundo e conversávamos sobre algum assunto que não lembro bem, quando você apareceu. Cruzou a porta com o cabelo perfeitamente desajeitado e os olhos quase tão escuros quanto o ambiente em que estávamos – exceto pelas luzes coloridas – e meu corpo estremeceu. Nunca havia te visto antes, mas meus sentidos se aguçaram de uma maneira que nunca havia percebido que poderiam. Amigo de um amigo meu, sentou-se na mesa conosco e logo já compartilhava dos assuntos da roda. Estava desconfortável, mas não pensei em ir embora em nenhum momento. A noite ficou assim, poucas palavras trocamos e um leve beijo no rosto quando nos despedimos.

Você raramente olha em meus olhos, já percebeu? Se não percebeu, te digo que já notei e te entendo. Evito ao máximo te olhar também, pois sei que nos meus olhos podem transparecer a confusão que tu me causa e prefiro continuar a ser durona.

Tá fazendo frio lá fora e eu não estou entendo nada, mesmo. Não me importo com a temperatura quase negativa que pode congelar minha boca, pois quando você está perto tudo fica eletrizado e quase solta faísca em alguns momentos. Não consigo admitir isso nem que me torturem, mas quando sinto o ar gelado é de você – o oposto – que me lembro. Talvez seja só o contraste que me faz lembrar das tuas mãos. Talvez é a saudade das luzes coloridas. Talvez eu só esteja escrevendo um monte de coisas sem sentido pra ver se ainda acho alguma coisa aqui dentro que me faça ter esperança de acreditar em algo. De qualquer maneira, toquei meus lábios essa manhã e fiquei desconfortável com o calafrio que senti ao constatar que estava quase 0° lá fora, mesmo que aqui dentro fosse diferente e eu não quisesse admitir.



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