CARTAS QUE NÃO TE ENTREGUEI E OUTRAS BESTEIRAS DE AMOR

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19 de março de 2018


Naquela calça de moletom azul um pouco curta nas pernas, com o cós morrendo em um tronco nu. No meio das gotas de água que ainda escorrem por teus ombros largos, eu vejo. Não presto muita atenção nos resmungos que dizem algo sobre o frio, com meu jeito absorto de observar o desenho dos teus movimentos que agitam a toalha no cabelo molhado, arrepiando-o. Entre o aroma do desodorante furtado da minha prateleira e o olhar que me sorri adentrando o quarto, eu vejo amor.



No meio das azeitonas pretas que eu separo uma a uma do meu pedaço de pizza e coloco no teu prato, eu vejo. Com aquela saciedade de quem sente que é possível equilibrar nossas diferenças, sorrio satisfeita. Perdido entre a bagunça de catchup, frango, catupiry, eu sinto o seu sabor. Na TV, uma reportagem sobre super-heróis humanos. No sofá, eu alertando sobre a coca-cola no edredom. Entre os papéis de bombons e as capas de filmes espalhados pelos fins de tarde, eu vejo amor.

No calor do teu corpo que me queima sem piedade e inflama todos os meus sentidos. Nas marcas que continuam ardendo a minha pele na manhã seguinte, eu sinto. Entre os teus pedaços preenchendo as minhas unhas e toda essa confusão de sussurros e suor. No momento da certeza de que o meu corpo foi desenhado com o único propósito de encaixar com perfeição no teu. No meio da madrugada e do êxtase, ele está lá.

Quando desperto do sono antes do amanhecer com teus braços me puxando para perto do teu corpo, eu vejo. E se durante algum pesadelo chama meu nome, não é preciso abrir os olhos para enxergar. No jeito em que nos abraçamos debaixo do cobertor, com braços, pernas, pés e pescoços entrelaçados, em uma grande bagunça na qual só o coração consegue se achar. Em cada intervalo de tua respiração quente na minha nuca, dia após dia, eu posso sentir.

Ao notar você me observando com curiosidade pintar os olhos, ler um livro ou cortar uma cebola. No teu interesse nas minhas pequenezas, eu vejo. Quando me faz perguntas cujas respostas, eu sei, não vão te acrescentar nada, mas simbolizam apenas o teu simples prazer de participar do todo da minha vida. Na tua vontade em ser parte de mim, eu vejo amor.

Bem no centro do vazio que fica toda vez que você parte. Dobrado no meio das roupas que eu arrumo para você levar embora, eu vejo. Pairando no quarto escuro quando tudo em mim arde de saudade, e o medo da perda comprime o peito com uma dor realmente física. Nos dedos embriagados que digitam uma mensagem trôpega e sem sentido. Num papel amarelado onde eu rabisco besteiras sobre amor. Bem claro em cada palavra torta, eu vejo.

E quando você voltar, estarei tão ocupada em ser sua, que essa vai ser só mais uma carta que eu nunca te entreguei.


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