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DEIXA CHOVER, MENINA


Eram dezoito e quinze quando ela colocou os pés na calçada. No ombro direito a bolsa pendurada e na mão o guarda-chuva ainda fechado. Na mão esquerda o cigarro e o café para viagem. Gostava de caminhar lentamente na volta pra casa saboreando um café recém passado — cortesia dos colegas de trabalho. Vez ou outra parava no parque próximo ao trabalho pra descansar a mente do dia cheio — de vez em quando nem era o dia que lhe abarrotava, eram apenas pensamentos insistentes. O céu ainda guardava resquícios da tarde, enquanto as nuvens o cobriam devagarinho. A chuva ameaçava, com gotas esporádicas, espreitando os desavisados que corriam pelas ruas em busca de abrigo. Ela não. Ela torcia pelas gotas, apesar do guarda-chuva.

No caminho havia um parque que sempre lhe trazia certa paz. A mistura das árvores, coqueiros e flores vermelhas com o fundo metálico dos prédios lhe atraía os olhos pela manhã, mas à noite as luzes médias lhe acalmavam. Sentou no banco de sempre, apertou o play na música de sempre e ficou ali, sentindo o vento lhe arrepiar os pelos, esperando uma chuva que sabia que não chegaria, apesar das gotas. Enquanto cantarolava abriu o bloco de notas e tentou escrever sobre o que vinha lhe tirando o sono nos últimos dias. Olhava o punho ainda marcado desde o último sinal de fraqueza, sentia a dor nas pernas e o peso no peito. Sentia demais, talvez.

A tela branca fazia os olhos arderem. As mãos dançavam um escreve apaga infinito. Bloqueio. A cabeça latejava, as mãos suavam. Os dedos agora imóveis. Guardou o celular na bolsa. Onde fora parar o caminho para sua válvula de escape? Para onde as palavras fugiram? Será que também tinham medo da chuva? Sentada no banco do parque ela pedia aos céus por uma gota de inspiração, uma brisa de fôlego pra poder voltar a respirar poesia e transpirar seus versos. Nada. Bloqueio. Falta de ar. Aperto. Dor.

A cada dia que se passava ela se pertencia um tanto menos. A cada dia o que antes lhe causava prazer, hoje lhe era indiferente. Os convites para sair lhe soavam vazios, os programas de TV não mais lhe entretiam, os livros não mais a carregavam da realidade nem lhe faziam refletir. Tudo se tornara um enorme nada ensurdecedor. Seu silêncio nunca fora tão temido.

Olhou, mais uma vez, o punho marcado e sentindo-se cada vez mais perdida, cada vez menos ela, entendeu que não anseava pelas gotas do céu. Desejava um fim que, assim como a chuva, sabia que não viria. Não agora. Era preciso enfrentar esse meio. Era preciso continuar. Conformou-se. Respirou o mais fundo que conseguiu. Acendeu mais um cigarro, bebeu mais um gole de café e fechou os olhos. A tempestade inesperada logo se formou, contrariando-a. As gotas marcavam o banco de cimento, o cigarro, a pele, a camiseta. As luzes do parque eram borrões e não mais enxergava as pessoas passando. A chuva engrossou e em poucos segundos tomou conta de tudo.

Abriu os olhos e ao observar o céu agora limpo, percebeu: não era dele que vinha a chuva, era dela.

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