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E FOI ASSIM QUE A GENTE ACABOU


O estou observando atravessar a rua e logo em seguida desaparecer pela porta de um prédio comercial que sempre observo quando passo por aqui. Quem diria que após anos eu o encontraria aqui, trabalhando no lugar que eu admiro quase todas as vezes quando não estou perdida em meus pensamentos, me dando alguns segundos antes de embarcar nas loucuras do meu trabalho? Sim, o trabalho que me tira a paz, mas me faz completa, como eu almejei naquelas nossas conversas sobre futuro, lembra?

Estou aqui, parada, e uma lágrima teima em querer escapar pelos meus olhos e repousar na calçada, só para perpetuar um tipo de lembrança tola que eu quero fingir que não foi nada demais e deixar para trás, mas que sei que não será. Então deixo ela escorrer pelo meu rosto, porque sei que deixando-a aqui ou não, eu sempre me lembrarei desse momento. Sempre lembrarei de quando achei que um estranho me tocou com força nos ombros e eu me preparei para gritar, e como me virei e devo ter arregalado os olhos em uma mistura de susto, raiva e felicidade. Ali estava seu rosto, seu sorriso de menino que eu tanto amei e eternizei em fotografias que jurava que sempre olharia com carinho, mas que no meio do caminho rasguei para, nos meios de minhas crises de saudade, não desenterrá-las e me causar a dor da qual eu procurava escapar. Ali estava você, e eu não sabia o que fazer.

Você me perguntou como eu estava, o que fazia da vida e pareceu feliz quando eu contei como concretizei quase tudo o que desejei. Quando me contou que fez a tal viagem que tanto guardou dinheiro para ir, eu sorri, mas a magoa me apertou tanto o peito que eu apenas queria correr dali e fazer como da vez em que o deixei naquela estação sem saber que seria a última vez que o veria. Então você me abraçou. Me envolveu em seus braços e eu desabei, não por fora, mas por dentro. Minha voz interior gritava para que fosse embora, mas meu eu externo apenas sentia seu calor e absorvia suas palavras que me atacaram de tal forma que tudo aquilo que eu jurei sentir por você foi embora "- Me desculpa", você sussurrou. E eu assenti.

Assenti porque não valia apena conviver com tudo aquilo, pois todas as nossas lembranças eram envolvidas por mágoas e palavras nunca ditas, por sentimentos ruins que embaçavam qualquer faísca de felicidade das lembranças boas. Eu não o lembraria mais como quem foi atrás dos seus sonhos e desistiu de mim tão fácil quando eu quis ser a durona que não cederia. Não o lembraria mais como quem me falou palavras lindas, me dedicou textos perfeitos e então se foi, mas quem fez tudo isso, e me tirou longos sorrisos e palpitadas no coração. Eu quis, eu te quis muito garoto, mas passou. Nosso momento se foi, e eu aceito isso. Hoje aceito que tudo muda e as pessoas também, que aquilo que idealizamos e achamos que será pra sempre nem sempre será. Nós não fomos eternos, mas fomos enquanto crescíamos de diversas formas, juntos. E como disse Eckhart Tolle: "É necessário que coisas acabem para que coisas novas aconteçam". E hoje nós acabamos.



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