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FAZ TANTO TEMPO


Acordei afoito e suado no meio da noite. Levei um tempo para me situar de onde eu estava, mas logo reconheci o vazio silencioso que entrava pelas frestas da cortina. A julgar pela escuridão, ainda era tarde. Ou quase cedo. Fiquei um tempo olhando para o teto que se escondia na minha parede azul. Eu sempre olho para o alto quando a insônia entra sem rodeios e suspiro um milhão e trinta e três vezes só para ver se o sono volta, mas é sempre em vão.

Eu tateei o lençol ao meu lado e só encontrei vazio. Suspirei outras mil vezes. Já faz muito tempo, desde que você foi embora e não há mais um fio de cabelo teu perdido nas esquinas desse apartamento pequeno. Eu continuo dormindo do lado esquerdo da cama, continuo deixando um travesseiro sozinho e continuo coando café para dois. Bebo sozinho. Durmo sozinho.

Faz muito tempo, mas não passa. 

Eu invadi o espaço que era teu e cheirei a fronha gelada, inventando teu perfume — que perfume você usaria agora? — e o cheiro do sabão em pó queimou minhas narinas. Faz muito tempo que queima. Suspirei mais cem vezes e senti o sono voltar tímido, junto com a fraca luz do dia que amanhecia. Você gostava dos tons do dia amanhecendo, lembro bem. E suspirei.

Faz tempo.

Fiquei deitado no travesseiro que era teu, lamentando o futuro que era meu, não nosso. Talvez tenha te perdido aí. Não sei, faz tanto tempo. O sono infiltrou-se, pesando minhas pálpebras cansadas. Eu invadi o teu espaço e peguei no sono ali. Não sei, talvez por isso tenha te perdido.

Sei lá. Faz tanto tempo.


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