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MUITO MULHER


Quando eu era pequena vivia escutando essas histórias que mulher tinha que ser meiga, que tinha que brincar com as bonecas e aprender a lidar com as coisas de casa, lavar, passar, cozinhar, ser o mais delicada possível porque esse era o comportamento esperado de uma linda menina. Sorte minha que só tive que ouvir mesmo, pois na prática saiu tudo do contrário, e ainda bem que em momento algum meus pais colocaram algum tipo de obstáculo nas brincadeiras e na maneira como eu crescia. Mas não se engane, eu era super meiga, do tipo que corria o dia inteiro na rua e brincava de futebol até tarde da noite, que defendia e, ainda defendo, meu irmãozinho com unhas e dentes e punho cerrado. Mamãe até tentou me ensinar a bordar, mas eu não levava mesmo jeito para aquela tarefa, furei todos os dedos e não saiu um ponto cruz decente.

Eu gostava de brincar de boneca, só que não do jeito convencional, eu meio que desmontava elas e ia brincar de guerreira com meus primos, eu fazia do corpo um escudo e das pernas minhas armas, eu ia desbravar reinos e conquistar meu espaço. Foi meu jeito de crescer, não estou de forma alguma dizendo que uma menina não deva bordar, ser toda delicada e brincar com bonecas, estou abrindo o coração aqui para dizer que meus pais me fizeram a mulher que sou hoje porque eles apoiaram a menina moleca do passado. A maluquinha que queria jogar futebol com os meninos porque não tinha time feminino, a adolescente que não quis fazer curso de administração, mas sim o de eletrotécnica, que só tinha meninos na classe. A mulher que deixou de lado os padrões e suja os dedos para trocar pneu na trilha quando fura. Eu agradeço muito a eles, pois em momento algum eu ouvi um: “ Indi não faz isso porque não é coisa de mulher!” “Indi, coloca outra roupa porque essa não está adequada”. E, para ser bem sincera, a opinião deles foi sempre a única que me importou. Eu até ouvi uns “mulher macho” quando jogava futebol, mas nem ligava, o mais legal era quando terminava o jogo e meu pai me abraçava e dizia: “E aí cansou os meninos?! Eu vi aquela jogada!”. Aquilo sim era importante para mim.

É assim que todas as garotas deveriam ser tratadas, que deixem elas escolherem o que querem fazer, que nossas habilidades não precisem ser confundidas com nossa opção sexual. Hoje eu sou uma mulher com todos os meus defeitos, não me tornei uma jogadora de futebol profissional, troco lâmpada quando necessário, sei o que é uma chave fixa e uma chave estrela, aprendi que posso ser o que eu bem entender, se eu quiser ser.

Não preciso de padrões, meu cabelo tem dia que quero solto com franja, outros você me verá de coque, camiseta, short e havaianas. Mas uma coisa eu não deixo me tirarem de jeito nenhum, minha vontade e alegria de viver. Se você está me lendo hoje, ensina para sua filha, prima, afilhada, que ela pode ser o que quiser, pode acreditar que o seu apoio é o mais importante que ela terá. As outras pessoas?! Bom, elas vão assistir de olhos bem abertos a menina que é muito mulher conquistando territórios, vencendo jogos de futebol, treinando karatê, levantando peso no Crossfit, pedalando e escrevendo poesia.

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