O FIM TEM GOSTO DE SAUDADE

|

2 de março de 2018


Hoje foi um dia daqueles que se iniciam com o pó do café caindo no tapete, às seis horas da manhã, e que faz a gente decidir entre limpar a bagunça ou comer antes de sair de casa. Fazer os dois nunca dá tempo e eu decidi por sair com fome. Tentei manter o pensamento positivo para que as coisas começassem a andar na linha a partir dali, assim como o senhor me ensinou. No trajeto entre casa e trabalho avistei dois acidentes. Dois apertos no peito. Hoje foi um dia daqueles que exigem demais da gente. Corre pra lá, corre pra cá. Ali não dá certo, nem aqui. Volta pra cá, vai pra lá. Não deu. Sabe aqueles dias em que a gente acaba ficando tonto nas voltas que damos ao nosso redor? Então, eu tonteei...

Decidi que eu merecia um café e um pão de queijo quentinho, daqueles que acalmam o coração e silenciam a mente. Parei em uma das panificadoras mais chiques da cidade, não sabia nem como fazer pra ser atendida. A atendente vinha com o celular anotar o pedido enquanto o telão chamava várias senhas aleatórias depois da minha. Sentei e rezei para que o meu pedido chegasse certinho, porque numa panificadora daquelas eu tive foi medo de fazer tudo errado, e o dia estava propício a isso.

O pão de queijo chegou, o café também. Ambos frios. Sabe aquele pão de queijo que parece mais rosca que pão de queijo? Não foi possível silenciar nem mente, nem acalmar coração. Os dois continuaram aflitos sem a quentura que precisavam. Respirei fundo porque sabia que, no fim, tudo daria certo. Sempre deu, não? Hoje seria assim. Comi aquele pão de queijo tentando lembrar de outro que me acalentava na infância, tentei fazer dele um bom portal de lembranças. Incrivelmente o fiz. Mais do que jamais imaginaria.

Antes de levantar e me dirigir ao caixa abri minha bolsa e confirmei se ali havia todos os meus cartões. Não que sejam muitos, mas sempre há o medo de algum não passar ou ainda não ser aceito, é que eu insisti em não aprender com o senhor a andar sempre com dinheiro no bolso. Na fila do caixa eu lhe vi. Era como se você estivesse ali dizendo que tudo ficaria bem. Eu sei vô, aquele torrão de amendoim com mel de abelha só podia ser o senhor. Quem no universo compra um torrão de amendoim com uma galinha na embalagem? Só podia ser o senhor.

O café não foi quente o suficiente pra aquecer meu coração. O pão de queijo não tinha queijo o suficiente pra acalmar a minha mente. Mas o torrão de amendoim tinha gosto de infância, tinha gosto de saudade, tinha cheiro de você. O torrão de amendoim fez que eu tivesse a certeza de que por mais que o pó de café seja derramado, por mais que a gente saia de casa morrendo de fome e por mais que várias coisas não deem certo durante o dia, no fim tudo dá certo.

Meu fim veio acompanhado de doce, de lembrança e de saudade. Meu fim veio acompanhado de infância, de piadas e de foguetes. Meu fim veio acompanhado de alguém que me fez lembrar que o fim pode ser bom, por mais que o meio ainda não seja.


comentários pelo facebook:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...