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PARA UM LIBRIANO: AO VENTO



Provavelmente esta seja só mais uma daquelas cartas que nunca serão publicadas nem entregues ao destinatário. Ainda que silenciosas, as memórias se juntam em palavras que aos poucos dominam folhas inteiras e ocupam espaços na minha gaveta desorganizada. O destinatário é o mesmo, o assunto também. O amor um dia morre, não é?

Um dia morreu pra você, não sei ao certo quando, mas um dia morrerá pra mim. Ainda não morreu, mesmo sufocado dentro do meu próprio peito. É por isso que lhe escrevo. Escrevo diretamente para você, por sua causa, embora não tenha acesso aos meus rascunhos cheios de frases desconexas. Os envelopes têm seu nome e são endereçados ao seu velho prédio, o qual eu costumava frequentar. Os anos se passaram sem muita pressa, você mudou de apartamento vez e outra, mesmo assim não alterei o endereço escrito à tinta nos envelopes.

Ainda sou a mesma garotinha a escrever-lhe, ou assim me sinto quanto me lembro do que um dia pude ser. Gosto de imaginar que você também não tenha mudado. Algumas mentiras fazem bem ao coração. Os papéis amarelaram um a um. As pontas dos envelopes se dissolveram de saudade ou lágrima. Admito que também envelheci, mesmo por trás de toda a vaidade que cultivei. Arrependo de ter cultivado também o orgulho, ele só me trouxe solidão. Acovardei-me, eu sei.

Ficar exposta nunca foi o meu forte. Por isso escrevo. Escrevo porque minha voz treme e falha sempre que penso em nós. Escrevo porque não me atrevo a dizer. Tive vontade de procurá-lo. Saí pelas ruas, olhei pelas janelas, voltei para casa logo. Acho que a coragem não voltou comigo. Você me traz de volta todas as inseguranças de uma pré-adolescente. Sorri e as rugas nos cantos dos olhos se ressaltaram. Terminei de dobrar o papel escrito, minha carta de alforria.

Guardei as cartas endereçadas a você, destinadas a mim mesma. Ao vento.



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