TEMPO PERDIDO

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12 de março de 2018


O relógio não mais me irritava com o seu tique-taque incessante, as horas já não me faziam sentido. O fogo bruxuleava na lareira acesa e, ainda sim, meu corpo sentia necessidade de cobertores — o frio era desumano. Procurei com pressa um casaco qualquer e enfiei-me debaixo do edredom que jazia em cima do sofá carmim. A sala era revestida de cores quentes, o incenso tinha cheiro de sol e, nem assim, afugentou o negrume e o frio que pairava na noite taciturna. Nada mais fazia sentido.

No mp3, tocava uma música que há tempos tu cantastes pra mim. Melodia de sono, voz e violão apenas. De olhos fechados, pude imaginar-te dedilhando as cordas, fazendo mágica com aquilo que eu era incapaz. Em contraste, a tua voz — rouca — enchia meus ouvidos e, minutos assim, já não era mais John Mayer quem tocava para mim, mas você. Um sonho tão real, que pude sentir o gosto amargo da lembrança na ponta de minha língua. Continuava muito frio.

O ar gelado me lembrou uma noite de verão sem calor. Há anos atrás, quando te xinguei com palavras fracas uma dor que começava pouca, pelas beiradas, rasgando-me lentamente. O ser humano tem disso, você bem sabe, de querer negar o real, acreditar somente naquilo que lhe é bom, escondendo as verdades da vida. E não sou forte o suficiente para fazer o contrário, antes uma dor que vem lenta, do que uma dor que vem inteira, derrubando-me por inteira.

A música chega ao fim. O fogo chega ao fim. Tua lembrança, míngua. Ao fim desta noite branca, te sussurro as palavras que te disse, tantos anos antes, quando chorasses tua partida:

— O tempo, já não me importa mais. Não se desespere, vá se assim tiver que ir.


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