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UM DIA COM ELA


Cinco e quarenta da manhã. Os olhos abrem com certa dificuldade, o corpo levanta como quem correu 10 maratonas durante as seis horas e tantos minutos de sono. Mais um dia, mais algumas tantas horas de trabalho, mais uma necessidade de fazer dar certo novamente.  Caneca cheia de café, uma fatia de pão, frutas e os comprimidinhos do dia ao lado, esperando a primeira refeição. Enquanto o café é absorvido aos poucos, os comprimidos são encarados ao passo que o pensamento tenta compreender como em pequenas cápsulas se encontra o alívio.

Carro, trânsito, trabalho. Poucos segundos antes das sete e meia o coração começa acelerar, a boca fica seca, adrenalina começa a subir pelo corpo, mãos frias e a famosa tremedeira se instala. Mas essa parte do dia só acaba as onze e quarenta e cinco. Respira – ainda há tempo. A cabeça compreende que é ela chegando aos poucos, mesmo sem motivo, mesmo sem um porquê aparente, mesmo tomando religiosamente após as refeições o simpático comprimido cor de rosa. Ela não obedece. Ela chega, se instala e decide ficar mesmo quando o dia pede calmaria.

A falta de ar é mascarada por um “acabei de subir algumas escadas”. A água vira parceira pra tentar disfarçar a boca seca. As mãos são escondidas para não revelar a tremedeira constante que faz balançar tudo o que toca. Mas os pensamentos não cessam, eles guerrilham a todo instante.

Ela chega de mansinho e se desperta mais conforme a mente tenta achar resposta pra mais um episódio dentre o tratamento. Remédios em dia, terapia também, nada de muito novo sob o sol. Por quê? Mas por quê? Não há porque. E sem porque a mente gira, porque a ansiedade não se satisfaz nem com respostas, quem dirá com a falta delas.

O corpo cansa porque a adrenalina não tem para onde ir. A mente esgota porque já não consegue mais rodar em si. O sono excessivo vira escape para mais uma crise daquelas – o organismo já não aguenta. No desejo de descanso a mente acusa a falha. Aponta que foi falha, que não aguentou, que é fraca e não merece recompensa. A mente acusa e desperta consigo a culpa que não deixa o corpo repousar. Culpa por ser “de menos”, culpa por pausar, culpa por só ser lar de uma parasita que nem se quer pede pra chegar.

É bobeira. É desculpa. É preguiça dessa menina que em nada ajuda. Só pensa em dormir. Não sai dessa cama. Vive trancada no quarto. Enquanto a mente tenta – com ajuda de faixa preta – desligar, ela transita nas mais diversas culpas que ainda tentam por em si.

O dia ainda não terminou, mas a ansiedade faz com que vários dias terminem assim, apagados por metade de um rivotril.



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