O DIA APÓS O FIM DO MUNDO

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30 de abril de 2018

COLAB
texto de Mafê Probst e George Huxcley (@huxcley)

Depois de certa idade vamos ficando naturalmente mais descrentes. Não se trata de insensibilidade, mas de senso do seu lugar no mundo mesmo. Quantas vezes o mundo pareceu acabar e houve outro dia? A gente acaba criando anticorpos. Mas será mesmo que devemos ter essa certeza que haverá um dia após do fim do mundo? Será que isso não nos faz deixar de viver o hoje da forma mais intensa? Será que ser adulto é mesmo ter essa certeza que amanhã estará tudo bem? Onde será que foi parar aquela coisa inocente adolescente de para sempre?

Já parou para refletir no tanto de vida que adiamos? Deixamos tudo para amanhã como se tivéssemos certeza de que todos os amanhãs que desejamos estarão ali, prontos para serem vividos. Mas enquanto esses eternos amanhãs não chegam, ficamos inertes e empurramos as horas com a barriga, aceitando um trabalho mais ou menos, convivendo num relacionamento mais ou menos e vivendo de um jeito mais ou menos, porque amanhã estará tudo bem e amanhã ajeitaremos as coisas. Enquanto os adolescentes vivem cada dia como se fosse o último, nós, adultos, aprendemos a viver cada dia como se fosse só mais um – e ficamos ansiosos e depressivos nessa agonia de querer que algo incrível aconteça sem nos darmos conta de somos nós que não criamos a oportunidade.

Como escreveu Marina Colasanti:

A gente se acostuma, mas não devia... A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma”.

É um tanto quanto desesperador imaginar entrar em uma vida no modo automático. Vida morna que é, no fundo, causada pela vontade de não se machucar nos espinhos das expectativas. Imaginar estar ao lado de alguém apenas pelo bem que nos causa e não pelos sonhos que provoca. Se contentar que talvez o amor não seja para gente. Que esse lance de amor, capaz de nos tirar o eixo, era apenas uma fase da vida que o tempo levou consigo. Que amor pra sempre só de filhos. Não se trata de querer ser feliz o tempo todo, ou querer morar em um eterno filme de romance de hollywoodiano. É apenas se sentir vivo, sentir que todas as coisas fazem sentido, ter e querer um abraço como morada ao final de um dia pesado. Encontrar um ombro para dividir os fardos. Uma parceria para qual seja a loucura ou aventura da vida, ter uma pele que sirva de analgésico para as feridas da alma. Às vezes sinto que considerar uma vida mais ou menos por medo, receio ou falta de fé, seja dar-se por vencido no amor mais importante: O próprio.

Quanto tempo ainda iremos desperdiçar encarando uma vida mais ou menos? Quanto tempo irá levar para nos encararmos diante do espelho e não aceitarmos nada que sejam migalhas? Quanto tempo irá levar para nos colocarmos em primeiro lugar e exigirmos uma vida digna do amor que merecemos ter? Eu tenho uma fé maior que o mundo de que, mais cedo do que tarde, iremos acordar e voltar a viver com a intensidade de um adolescente, encarando o mundo com a curiosidade das crianças. Que não permitiremos ir levando nesse chove não molha, nessa vida morna que mendigamos. Estaremos vestido do melhor amor que podemos nos dar – o próprio – e não aceitaremos nada que nos torne infelizes, apáticos e acomodados.

Sentiremos a adrenalina da vida correr nas veias – e será o fim da era do ‘modo automático’.

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