QUANTO TEMPO DEMORA PARA O FIM ACABAR?

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2 de abril de 2018


O nosso trato tinha sido o fim. Exatamente assim: com direito apenas a um ponto final. Assisti pelo canto dos olhos você catar todas as suas vírgulas, que estavam ali há tanto tempo dando sentido a uma história. Engoli minhas exclamações. Eu havia perdido o controle do enredo, e agora ele te empurrava pela porta da frente para nunca mais voltar. Quando teus passos viraram a esquina, senti uma lágrima quente escorrendo pelo canto da boca. Tinha gosto de reticências.

O nosso trato tinha sido mesmo o fim? Então diz pra mim: o que o teu sorriso está fazendo dentro da minha gaveta, descansando entre uma meia e um sutiã? Ninguém me avisou que no fim havia tantas metades. E agora, o que faço com os teus pedaços espalhados pela bagunça que a vida ficou? Tua respiração pesada ainda sopra hálito de creme dental de hortelã em meu pescoço toda noite. O castanho dos teus olhos me encurrala em cada aresta da casa. Qualquer perfume que cruza por mim na rua tem o teu cheiro. Quanto tempo demora o fim pra acabar?

Se você souber a resposta, por favor, não recorre àquele franzir de testa que me faz sentir o quanto sou estúpida. É que, pra ser sincera, eu achei que aquela conversa de “não dá mais” era tudo o que bastava. Ela devia ter apagado da minha memória o teu riso frouxo enquanto me olhava absorto, não importava se eu estivesse usando batom vermelho ou pijama da Minnie. Devia ter me feito esquecer como o teu corpo tem sabor de estar em casa, e eu nunca mais saberia descrever o desenho da tua barba e a travessura exata que conta a história de cada cicatriz que você herdou da infância. No fim, não era pra eu conseguir lembrar a posição da tua escova de dente na minha prateleira, ou dos teus neologismos em meu vocabulário.

O nosso trato tinha sido mesmo o fim. Mas enfim… não dizem que é depois dele que surge um novo começo? Esquece a coerência, escuta o coração. Se ele ainda bater no mesmo compasso, então muda o teu passo e vem bater no meu endereço. Não aprendi a fazer café, mas ainda sei fazer rima. E lembro exatamente a receita que você gosta: vou combinar açúcar e canela e ler com voz de menina. Não se preocupe, não vou esperar resposta. Quero apenas que você tire os papéis das minhas mãos antes de eu terminar a última estrofe, atravesse um braço em minha cintura e embarace uma mão em meus cabelos. Acelera a minha respiração, faz eu me perder no teu labirinto de poros e pelos.

Não, não me deixa terminar. Antes, me entrega teus arrepios, saliva e suor. Me cega para o que difere o tesão da coesão. Me fere, carrega pedaços de mim em tuas unhas e me faz esquecer as outras dores. Não espere: venha buscar o último verso em meus lábios e suga-lo do íntimo da minha alma – você conhece o caminho à beça. Não tenha calma. Minha poesia e meu coração têm pressa.

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