SER TRAÍDA FOI A MELHOR COISA QUE ME ACONTECEU.

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18 de abril de 2018

gisella

Você deve ter se assustado com um título desses, né? "Essa doida não sabe a merda que está falando" — pode ter sido seu primeiro pensamento. Acontece que eu sei e muito bem. Sei como ninguém e sei como todo mundo que já foi traído pela pessoa a quem deu o amor que julgou merecer. Eu sei, na pele, o que é olhar nos olhos de quem disse te amar e no mesmo segundo que você levou para dar as costas, foi correndo pros braços de outra pessoa. Sei como é depositar a própria vida num relacionamento achando que seria eterno — porque até quebrarmos a cara é isso que acreditamos que devemos fazer — e no instante em que o fim se confirma sentir que perdeu essa mesma vida, que está passando por uma quase-morte sem fim e pior, de olhos bem abertos. De repente não existe mais relacionamento, não tem mais chão, o ar sumiu e não há força alguma para atravessar um segundo, que dirá um dia inteiro. E é justamente por ter passado por esse abismo que eu digo e repetirei quantas vezes puder: ser traída foi a melhor coisa que me aconteceu.

No começo doeu sim. Para caramba! E quando falo de dor não me refiro ao sentido figurado, poético. Falo da que beira a loucura, da que esmaga nossas entranhas tanto quanto comida indigesta. Falo da dor que descabela, que se alimenta do choro e dos gritos que silenciamos, porque sofrimento verdadeiro assusta. Falo da dor que imobiliza, tornando frustrada qualquer tentativa de caminhar — seja da cama para a cozinha ou de casa para o trabalho. As pernas doem e você não quer se levantar para nada. Os braços doem de tanto que você segurou o travesseiro na boca para que ninguém ouvisse seus gritos de raiva. A garganta dói por causa de todos os choros engolidos para poder trabalhar, para fazer compras no supermercado — ou morreria de fome —, para entrar num ônibus lotado ou dirigir o seu carro. A mente dói pelo simples fato de que a vida não pode parar só porque você precisa curar suas feridas. Ela continua e, infelizmente, parece passar cada vez mais rápido, te causando a sensação infinita de que você está ficando para trás — de novo.

A questão é que dor, assim como vento (vontade, estação, angústia, tristeza, alegria, etc), uma hora passa. Uma hora cessa. Pode demorar um dia, uma semana ou 10 anos. O despertar pode acontecer por causa de um conselho amigo, uma frase dentro de um biscoito da sorte ou só a constatação de que o tamanho da sua dor só importa quando você está mais preocupado com ela do que com o remédio para curá-la. O despertar de uma dor não tem receita pronta nem prazo para acontecer, mas é mais possível do que você imagina.

Hoje, anos depois de ter passado por tudo isso eu poderia listar inúmeros motivos pelos quais dei esse título ao texto. Eu poderia falar sobre como aprendi que minha confiança precisa ser conquistada e que se ela for quebrada a culpa não é minha. Poderia contar que aprendi que ninguém pode me fazer sentir incompleta com toda essa baboseira de metades que se encontram — pessoas inteiras, é disso que precisamos. Aprendi, também, que esperar que alguém mude por nós é tão inútil quanto colocar a mão no fogo e querer não se queimar. Ninguém muda por ninguém, as pessoas se ajudam no processo de evolução, mas a essência do caráter foi formada muito tempo atrás e nenhuma força exterior vai mudá-la facilmente. Nessas duras pedras que escalei para chegar onde estou hoje eu aprendi duas das maiores lições que a vida poderia me ensinar:

  1. Nunca deixe que sua felicidade dependa exclusivamente de um outro alguém. É muito lindo isso de colocar o coração nas mãos de quem amamos... Nos livros, filmes e novelas. Na vida real não. Amor mesmo não pede nem reciprocidade, que dirá garantia.
  2. Respeite o seu tempo! Você passou por uma decepção gigante. Você terá que dissolver planos, sonhos e expectativas. Você vai ter que lidar com tudo no seu tempo e ninguém pode te acelerar ou dizer que está indo rápido demais. Viver suas dores e tristezas não te enfraquece. Falar sobre elas também não.

Portanto, nem sempre uma decepção é algo ruim assim. O que importa é como você vai viver dali em diante. No meu caso a causa da minha dor foi o meu despertar para a vida. E você? O que fez com a sua dor?


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