SOBRE O QUE DIZ MEU SILÊNCIO

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23 de abril de 2018


Eu te acho uma tola por ficar ressentida quando não me ouve pronunciar o que sinto em alto e bom tom. Você já me conhece o bastante pra saber que em meus lábios há mais beijos do que palavras. E nem adianta me observar de esguelha com teus olhos redondos e nervosos, enrugando a testa e sacudindo o pé com força, pra demonstrar o quanto está irritada. Não adianta fazer um coque no cabelo, vestir o pijama branco de bolinhas pretas e colocar os óculos de grau pra assistir à TV, só para me mostrar (como quem não quer nada) o quanto é possível ser linda em cada pedaço de normalidade. Porque ainda assim, eu te acho uma tola. E olha que não estou nem considerando o fato de você querer me obrigar a chamar as bolinhas pretas de “poá”.

Você é uma pequena tola, menina. Porque é no âmago do meu silêncio que eu grito todos os dias tudo o que sinto. Nas noites em que apago o meu cigarro sem uma palavra, quando noto que você acabou de sair do banheiro com o cabelo lavado. Ou quando me esforço pra memorizar os nomes dos seus personagens favoritos, ainda que sejam de livros que eu nunca lerei. Ou nas manhãs em que desperto sem fazer ruídos pra poder passear com olhos intrusos pelo desenho do teu rosto, tentando memorizar a posição de cada pequena sarda que estampa teu nariz. E depois, quando faço de conta que estou me mexendo durante o sono só pra te acordar, porque não consigo ficar muito tempo sem ver o teu sorriso e ter a certeza diária de que é ele o meu par. Toda vez que você sorri, menina, eu te amo ainda mais. Toda vez em que eu te recosto em meu peito e faço um cafuné sem jeito, meu coração bate com força no ritmo de uma canção que tem o teu nome. Vê se deixa de ser tola e escuta, menina.

Pois então não me peça pra enumerar motivos, oras. Se você quer mesmo saber a verdade, a razão costuma soprar em meu ouvido com tom severo que essa coisa de amor uma hora dói. Mas, no fim do dia, é a tua voz que eu prefiro ouvir, rindo de alguma bobagem dita num programa de auditório qualquer – é quando tudo se desvanece e eu sinto que não poderia ser mais feliz. O meu querer é um substantivo nada abstrato, que não aprendi a quantificar. Então, por favor, não me pergunta porque estou aqui, apenas abraça a minha presença com teu cheiro doce de macadâmia. Não precisa dizer nada, eu vou entender que estou em casa. Não me faz mais perguntas, menina. Apenas aceita ser o meu lar e diz que nossas paredes estão seguras. E então eu vou despir as tuas cortinas e percorrer com os lábios cada cômodo do teu corpo. Quando eu te olhar nos olhos, é porque quero fazer deles janelas e poder contemplar a eternidade que cabe em teu céu. E nesse instante, os meus gemidos não serão sem sentido. A cada vez que eu sussurrar ofegante em teu ouvido, eu vou estar dizendo que é aqui – até o fim dos meus dias – que eu quero morar. Vê se deixa de ser tola e entende, menina.

Sentimento não foi feito pra caber em escala, veja bem. Ele se torna real é na hora em que transborda, afoga, sufoca a respiração até tocar o inconsciente. Amor não carece de barulho, menina. O único som necessário é o de um coração regando disposto a semente plantada em solo vizinho, até que a raiz reconheça sozinha o seu lugar. Quando você me vir calado, não toma o meu silêncio como indiferença – é que eu estou concentrado cuidando do nosso amor pra poder te presentar com o jardim mais colorido.

Nas manhãs de domingo, eu posso podar os ramos enquanto você molha os pequenos brotos. Então, deixa de uma vez essa tolice, e quando o primeiro lírio nascer diz logo que eu não preciso mais ir embora. No dia em que eu trouxer minhas malas, enrola o cabelo naquele coque e põe o pijama de bolinhas pretas pra me esperar. Eu te dou toda a beleza contida em meu silêncio, se você finalmente disser que para sempre será o meu lar. E nesse dia, eu vou te provar tudo o que sinto. Não, não vai ser necessário pronunciar que te amo. Eu vou apenas te sorrir ao cruzar a porta e correr pra te abraçar forte, com a mesma força que gostaria de passar o trinco na porta. Não se espante se eu me demorar assim por algum tempo, respirando o teu perfume e soprando hálito de menta em teu pescoço. Vou beijar teus lábios rosados e rir feliz para cada uma das tuas sardas. Encarar o castanho-esverdeado dos teus olhos e pensar no quanto eu adoro esse papel de parede.

E só vou quebrar o silêncio pra dizer o quanto você fica linda vestida de poá, menina.

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