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VOU SENTIR


São três da manhã. Preciso acordar muito cedo, mas só consegui acabar o último episódio agora. Fiquei parada alguns instantes olhando para o teto, pensando em tudo que havia acontecido com Hannah Baker e cheguei a conclusão de que sou ela, às vezes. Só às vezes.

Mãe, pai, se vocês estiverem lendo isso não se preocupem, pois não vou cometer suicídio. Deixe me explicar mais claramente: Hannah era uma menina que estava no Ensino Médio e tinha uma vida amorosa bastante fodida, e em algum momento ela decidiu que nada mais valia a pena. Decidiu que nada bom em sua vida era suficientemente bom o bastante para se sobressair as coisas ruins. E então ela se matou.

Fiquei pensando em cada um dos motivos dela e comecei a rir. Jamais riria da desgraça alheia, mas ri por ver que penso — ou pensava — como ela em um ou dois aspectos. A estranha mania que as pessoas tem de ver tudo do ponto de vista mais dramático e achar que quando algo ruim acontece nada mais de bom pode acontecer adiante é tolice.

A parte mais interessante é o Clay e a sua forma estranha de demonstrar coisa alguma, apesar de sentir muitas coisas por Hannah. Qual a dificuldade as pessoas tem em dizer que gostam? E é ai que eu digo: sou igual — ou era, até hoje. Fico brava por essa história deles não ter terminado como aqueles romance água com açúcar onde o menino se declara e a menina diz que sempre sentiu o mesmo e tal.

Ela teve que morrer — literalmente — para que ambos conseguissem falar sobre isso.

Há uma frase, em especial, que me chama muito a atenção: E se o único jeito de não se sentir mal for parar de sentir qualquer coisa para sempre?. Com o decorrer das coisas, ela simplesmente se fecha. Mata todos os resquícios de qualquer coisa que pudesse germinar no seu peito e em seguida, mata seu corpo. Não julgo, mas tento me colocar no lugar, pelo menos em relação a parte sentimental. Penso nas milhares de vezes que ouvi coisas como "A partir de agora não sentirei mais nada", "Melhor mesmo é não sentir" e fico tentando achar alguma resposta olhando para esse teto.

Penso nas vezes em que já fiz isso também. Será que essa é a melhor saída? Algo muito forte bate aqui no meu peito e diz que não. Devemos sentir sim, devemos chorar sim, devemos espernear e devemos falar. Tem muita gente por ai tendo uma vida tão fodida — não somente no amor, mas em outras partes também — quanto a nossa e nem por isso elas se fecham completamente.

Com as costas um pouco doloridas, deito de lado e imagino a vida por um instante sem poder sentir coisa alguma aqui dentro. Parece escuro demais e sombrio demais. Nesse momento, pude perceber que não é assim que as coisas são. Não devemos deixar de sentir somente por não parecer bom. As cicatrizes existem, mas elas curam. Sou prova viva disso. Caso não curem sozinhas, alguém sempre estará disposto a nos ajudar a curá-las (mesmo que não saibamos disso). E se você ainda não achou "o Clay", tem dezenas de outras pessoas — pais, tios, amigos — dispostas a te mostrar que vale a pena esperar.

Hoje aquela pessoa pela qual minhas mãos suam tem mais ou menos um metro e setenta e poucos, mas, se por um acaso não der certo, sei que daqui um ano — ou menos, tudo depende de como as coisas vão ser — ele pode ter outra estatura.

É ai que está a graça. A vida é cheia de surpresas e ali na frente tudo vira de cabeça pra baixo quando alguém decide ficar. Só se fica onde se pode florescer e matar o local onde algo pode germinar é também matar as possibilidades.

Minha decisão, hoje, foi não matar mais nada aqui dentro. Vou sentir tudo e se tiver que doer, que doa. Mais cedo ou mais tarde - espero que seja meio tarde, pois preciso dormir - aquela xícara sempre vazia vai estar cheia de café e então, olhando nos teus olhos, vou lembrar como foi bom deixar as coisas vivas aqui dentro.



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