JÁ FUI TUA MORADA

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7 de maio de 2018


Morri com cinco tiros no peito. A morte mais lenta e dolorosa da minha vida. A carne permanecia intacta, mas o coração definhava. A pólvora dos tiros ia percorrendo as paredes do que um dia foi tua morada. Tudo isso aconteceu enquanto eu te vi sair do café de mãos dadas com alguém que não era eu.

Engraçado pensar que fazemos as coisas como se tudo durasse para sempre. Não é errado ter planos, mas devíamos pensar em alternativas para seguir o caminho quando chegamos no fim – mesmo que não queiramos chegar neste momento.

Ver aqueles braços, que um dia me envolveram calorosamente e me fizeram colar no seu corpo, abraçar outro alguém me fez morrer – mesmo que por alguns instantes. Não esperava isso. Ninguém espera na realidade. Provavelmente é por essa razão que chamamos a realidade por esse nome: é como as coisas REALMENTE são – como cada atitude torna-se uma consequência previsível e até palpável algumas vezes.

Enquanto te perdi de vista naquela avenida, lembrei da última noite que passamos juntos – cada pequeno detalhe estava na mente como se eu lembrasse da noite passada – a varanda da tua casa, a taça de vinho que segurava com os dedos bem juntos e nossas estrelas. Digo que eram nossas, pois no dia em que me deste falei que não poderiam ser só minhas, não queria nada que fosse meu, era nosso. Era.

Naquela noite em quando coloquei o braço esquerdo sobre teu ombro e a mão direita em teu peito antes de beijar-te, podia jurar que éramos para sempre. Teus lábios pareciam perfeitamente combinados com os meus. Teu corpo denunciava a tua entrega total ao se arrepiar quando estávamos pele com pele.

A parte bonita disso é, sem sombra de dúvidas, ver que nada foi em vão. Obrigada pelo tempo em que tu esteve aqui. Mesmo que para ti não faça a menor diferença hoje, ainda é bom morrer ao te ver com alguém, isso me mostra que podemos voltar a viver depois do fim e faz com que as setas lembrem que é preciso apontar para vários lugares alternativos para saber enumerar corretamente a ordem das coisas quando vamos começar a viver de novo.

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