icones sociais

por que ser feliz dá tando trabalho?



É fácil reclamar, né? O trânsito lento, a internet falha, o sinal cai, o dia não passa, a comida esfria, o dia esquentou demais, o chefe não deixa em paz. O cliente é chato, o salário atrasou, a conta chegou, a liquidação acabou. É fácil achar a pedra, mesmo mudando de sapato todo dia, porque todo dia tem um grãozinho de areia que vem não sei de onde, mas não sai na mesma velocidade. Todos os dias são repletos de queixas, poréns, apesares e pesares, porque reclamar é mais fácil do que lembrar de agradecer. O incômodo, por cultura, sempre será maior que o prazer.

Sempre achei curiosa essa mania que temos de olhar mais para o que não nos satisfaz e menos para o que nos traz brilho ao olhar e paz na alma. Sempre fui do tipo que tenta entender de onde veio a pedra ao invés de só me queixar por sua existência. E sempre tive minha alegria instantânea colocada à prova, todos os dias. Seria utópica ou até hipócrita se negasse meus dias de resmungos e praguejos, é fato. Quem é feliz o tempo todo, na verdade, nunca conheceu a felicidade em sua essência. Aquele velho clichê sobre gostar do doce por conhecer o amargo, sabe como é.

Mas acontece que - como fui lembrada pela minha esposa dia desses -, por exemplo, quando compramos um colchão novo, do jeitinho que queríamos, dura pouco a euforia da conquista, do conforto, do bem estar, porque estar bem é estranho, cansa, enjoa. Ressaltar felicidade é esnobe, não é? Qual a necessidade de ficar falando da quantidade de molas, da ausência de dores nas costas, etc? Nenhuma.

Desde cedo somos ensinados que reclamar é normal, que todo mundo tem problemas, que falar sobre as coisas ruins que vivemos é, também, demonstrar empatia, mas não pode falar demais. Quem reclama demais é chato e isso é praticamente senso comum. Tudo demais faz mal, mas antes ser um chato reclamão que um esnobe feliz demais. Felicidade incomoda, já diziam por aí não-lembro-onde. 

Desde cedo aprendemos que felicidade deve ser guardada debaixo de sete chaves, reclamações não. Reclamar pode e muitas amizades começam assim, inclusive. "Deixa que pensem que você está na pior", ouvi. E sempre me incomodei com essa frase, mais ou menos como quem se incomoda com pedra em sapato.

Faz parte do meu trabalho entender como funcionam os sites de reclamação e um deles, o maior do Brasil, é o quinto site mais acessado entre todos os brasileiros, sabe por quê? Porque reclamar dá gosto. Adrenalina corre solta. Porque insatisfação motiva mais que contentamento. Raiva excita. Porque a gente aprende, desde cedo, que reclamar nos proporciona resultados mais rápidos, mas elogiando não ganhamos nada.

Na verdade, o egoísmo é tanto que ainda há quem acredite que é obrigação do elogiado retribuir com algo. "Olha, eu elogio a empresa nas redes sociais em troca de algo". Oi? Tem algo errado no mundo, ou eu que nasci no universo errado? Poderia seguir por aí, mas seria uma reclamação como qualquer outra, esperando aprovação, análise, aliança de outros infelizes (no sentido literal da palavra) espalhados por aí, então calo.

Ser feliz dá trabalho sim, mas eu fui diagnosticada com teimosia crônica desde o primeiro sorriso, após intensas doze horas de parto (beijos, mãe). Então entre reclamar sobre as pedras no sapato ou aprender a conviver com elas, não hesito. Prefiro andar descalça e sujar os pés na terra, sentir a água arrepiar meu corpo quando for lavá-los, conhecer tanto a textura da grama quanto da areia. Vai ter topada no dedão, sim. Vai ter prego, formiga, pedrinha, quina de criado-mudo, espinho de flor e queimadura de urtiga também, mas nunca me farão deixar de sorrir durante a caminhada.

Porque também vai ter tapete fofinho, massagem, barriga de cachorro e o parte de baixo do cobertor ao lado de outro par de pés que, espero, também queira dividir felicidade pelo caminho e a cama pela noite.

Por sinal, já falei da cama que comprei três anos atrás? É a melhor do mundo, sabia? Peraí que vou te contar tudo sobre ela...

Comentários

Instagram