A MENINA E O SOFÁ

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31 de maio de 2018


Eu juro que não queria quebrar o brinquedo do Nuno, não sou assim, mas ele bem que ele mereceu. Ficou me implicando o tempo todo! Eu só queria brincar, poxa vida! Não custava nada ele deixar eu ver como funcionava aquele boneco, tinha até uma fala quando apertava o cinto de super herói dele. Mas não, não podia pegar porque era brinquedo de menino! Que saco isso, pois eu queria ver como funcionava. Na hora que ele foi para o banho, eu fui até o quarto e tirei o boneco da caixa. Ele guardava com tanto cuidado que fiquei com medo de não conseguir deixar tudo do mesmo jeito para quando voltasse.

Um super boneco do Thor, lindo, com os cabelos amarelos e brilhante, e na armadura um botão bem discreto que deixava ele dizer em alto e bom tom: “Por Asgaaaaaard!!Meus olhos brilharam. Ali em cima da cama eu já travei grandes batalhas e fui conquistando o reino, só que numa escapulida, Thor caiu de ponta no chão. Só dei uma olhada de lado e vi seu martelo voar longe junto com o braço dele que se separou do corpo. E agora?! Mamãe já tinha dito para não mexer, Nuno também me aterrorizou. Peguei o pedaço do braço, coloquei dentro da caixa junto ao corpo e sai às pressas para encontrar um local seguro até que os ânimos se acalmassem, porque ia dar problema aquele martelo separado. Se mamãe visse eu iria levar umas palmadas.

Saí correndo do quarto e nenhum lugar era seguro o bastante. Para onde eu iria!?

Passando rapidamente pela sala, lembrei do sofá, tinha um mega esconderijo lá, me cabia certinho e ninguém iria me achar ali. Pronto! Decidido! Entrei pelo buraco próximo a parede e resolvi que ali seria meu quartel, nada poderia atravessar a barreira, estava com meu panda e ele iria me proteger de tudo. Brinquei um bom tempo ali dentro, duelando com soldados de outros reinos e vencendo batalhas e guerras. Estava tão cansada e aos poucos fui pegando no sono, escorreguei um pouquinho e me aconcheguei entre o estofado e o panda. Dormi tão rápido e tão bem que nem me preocupei com o lugar que eu estava.

Meu sono profundo deixou o povo do lado de fora doido! Eu não disse que ia ser um Deus nos acuda!? E foi! Nuno achou o boneco quebrado e foi correndo avisar a mamãe (ô língua de trapo!). Mas esse não foi o caos: Dona Laura queria saber de mim, por que eu tinha mexido no brinquedo do Nuno, só que eu não respondi ao chamado. Todo mundo da rua foi avisado que eu tinha desaparecido, os vizinhos vieram acalmar a mamãe, e a polícia foi colocada no caso. Quando acordei do meu sono tranquilo vi um monte de gente pra lá e pra cá dentro de casa, uma barulheira danada, escutei o barulho do carro da polícia e pensei em ficar quietinha, não ia ser legal sair agora. Mesmo respirando baixinho senti uma mão puxando meus pezinhos. Era tio Pedro, gritando a todos os cantos que tinha me encontrado.

Eu não sabia o que estava acontecendo, ainda meio assustada com os gritos e com os apertos que minha mãe me deu ao me abraçar. Ela chorava sem parar e me dava beijo, quase perguntei do boneco do Nuno, mas fiquei em silêncio, depois a gente resolvia isso né?!

No meio daquela confusão toda, a porta da sala se abriu e eu senti meu coração parar por um segundo. Meu pai abriu a porta numa voracidade e veio pisando tão duro no chão que me assustei, acho que eu não tinha feito algo legal, porque ele firmou os olhos nos meus e já chegou me levantando do chão. Gelei, fiquei com os olhos espantados e senti meu corpo ser carregado até o quintal do fundo. Nunca tinha visto ele chorar, e dos seus olhos saíam tantas lágrimas que me atrevi a enxugar algumas, ele dobrou o rosto em minha mão e disse soluçando: “Nunca mais vou perder você de vista! Nunca mais!!!”

Foi o abraço mais apertado que eu tenho guardado nos pensamentos.

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