PAREM OS RELÓGIOS, O RÁDIO TOCOU NOSSA CANÇÃO

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13 de junho de 2018


A faxina espera, amor. A vassoura caída no canto da sala nem vai ligar e o rodo encostado na porta da cozinha não vai se queixar. O pano que descansa tranquilo no balde, mergulhado em desinfetante com cheirinho de talco, nem percebeu que o tempo parou. O lixo aguarda, ansioso, traços de preguiça misturados com restos de cidade grande, mas também vai esperar, porque o rádio tocou a nossa canção.

Os pratos adoram ser esfregados, como amante manhosa que convida a pessoa amada a dividir o chuveiro, mas tenho certeza de que aguardará também. Os copos, nostálgicos, ainda guardam fragmentos do que quer que tenha nos molhado os lábios, porque não gostam de palavras secas. Os garfos, facas, conchas e espátulas tintilarão um pouco mais tarde hoje, porque justo agora, lá no rádio, começou a nossa canção.

O celular pode vibrar, os amigos podem chamar, as mães podem se preocupar, nem ligo. Os chefes podem surtar, os colegas podem reclamar, os clientes podem esperar. O computador, hibernando entre um e-mail e um relatório, garanto, também não vai se importar. As fotos da nova pasta já contaram que quando o rádio toca a nossa canção não tem contato virtual que supere o entrelaçar de braços, levadas, abraços e passos.

Deixa a novela acabar, meu bem. Deixa o jornal anunciar, a revista publicar e os vizinhos comentarem. Deixa o mundo se acabar, deixa a política enlouquecer, deixa o dia dormir e o sol nascer. Deixa a vida lá fora rolar, que sintonia não espera. Vem, sem maquiagem, sem aparências, sem jogos nem disfarces. Vem, crua, nua se quiser. Me abraça, me roda, me vira, me bagunça, me afasta e me puxa de volta, que o rádio tocou a nossa canção e o amor nos tirou pra dançar.

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