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Ingrediente indesejado

ideia da frase descaradamente copiada dessa música lindona aqui

Ela avistou de longe um botequim na esquina. Olhou para o céu que ameaçava chover. Olhou para as horas que não ameaçavam correr. Mexeu os pés, num sapato de salto, que começavam a doer e decidiu, sem muito pensar, que era ali que ela iria encerrar essa segunda-feira fria.

Nada novo, salvo o botequim na esquina.

Entrou e sorriu. O ambiente era fracamente iluminado e tinha um cheiro agridoce gostoso, misturado com o odor de cerveja. Muitas mesinhas apertadas e um balcão no final, onde um moço limpava os copos com um pano de prato xadrez. Vermelho e branco. Sorriu e se sentiu num filme antigo – naquele pequeno recinto nada lhe lembrava o agito da cidade, as buzinas ensurdecedoras, as pressas intermináveis...

Sentou-se no canto direito do bar de costas para a janela embaçada que mal deixava a luz entrar. O moço colocou o pano de prato nos ombros e lhe estendeu um cardápio puído nas beiradas. Nada extraordinário: cerveja; destilado e algumas cachaças da região.

— O que me sugere, das cachaças daqui? — perguntou ela ao moço do pano de prato.

— Se gosta do amargo, escolha essa — e apontou para o cardápio, — mas se preferir algo mais docinho, pegue essa. — e apontou para o cardápio.

Ela assentiu com a cabeça e ele logo lhe trouxe uma dose de uma cachaça com gostinho de bala de coco. Queimava. O primeiro gole lhe trouxe lágrimas aos olhos, mais por causa do álcool do que da vida.

Mais uma, ela pediu ao moço do pano de prato. Ele assentiu e serviu. Ela virou a dose, chorou e novamente pediu. E ele assentiu e serviu. E ficaram nessa valsa por doses seguidas. Ela levantava o dedo, ela levantava as sobrancelhas. Palavra alguma precisava ser dita.

O botequim escurecia. A fraca luz mal iluminava. Uma tórrida chuva despencava grosseiramente do lado de fora do bar. O relógio marcava lentamente as horas que, num suspiro desanimado, ela viu que mal tinham passado.

Outro gole. O copo se esvaziou num piscar de olhos. Ela ficou olhando para o copo vazio e sentiu o corpo também esvaziar. Não piscava. O moço do pano de prato seguia limpando copos; começou tocar uma música baixa, que ela não conhecia. Ninguém entrou no bar, salvo um rapaz de capuz encharcado que, claramente, só estava esperando a chuva passar.

Ela estava apática. A cabeça zunia. A garganta secava e as lágrimas não paravam de pingar na bancada amadeirada. A chuva seguia batendo fortemente na vidraça.

— Outra dose? — perguntou o moço do pano de prato.

Ela encarou-o com os olhos vermelhos e vidrados.
Quem foi que colocou tristeza dentro da cachaça?


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