SORRISO DE ESTRELA

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6 de junho de 2018

agua-de-chuva

Todos os dias no caminho de volta para casa, quando a cidade começa a acender as luzes e o céu se apaga aos poucos, quando as nuvens ainda não tomaram conta de tudo, eu enxergo uma estrela. Sempre no mesmo lugar. Sempre brilhando forte. Sempre solitária. E eu sempre paro. Diminuo o passo, de vez em quando aumento a música pra não ouvir os carros ou os papos. Ali, na porta do parque, no meio da calçada, do lado de cá da passarela, eu paro. A vida que espere, pois há uma estrela em meu caminho.

Às vezes é como se eu pudesse ouvi-la sussurrar coisa qualquer no meu ouvido, interrompendo a música. Às vezes é como se eu pudesse atravessar a ponte e chegar mais perto dela. Às vezes ela parece piscar pra mim, como se dissesse "tô te olhando também". Nesses dias eu sorrio, porque sorrir parece a resposta certa pra piscada de uma estrela, não é? Às vezes, bem de vez em quando, eu fecho os olhos e conto até três pra ver se ela continua lá. A gente brinca de esconde-esconde no meio da vida, pra disfarçar que quem se esconde todos os dias sou eu. De tudo. De todos. Só dela que não. E me pergunto se o dia é o momento em que ela fecha os olhos e conta atê três, só pra ver se na noite seguinte eu estarei por lá. E eu sempre estou.

Todos os dias, quando as nuvens não cobrem o céu, eu quero tirar uma foto da estrela, mas quando ligo a câmera ela se torna só um ponto branco na imensidão noturna. A foto não faz jus. Ela é tão mais que isso. Então desligo, o celular e a ideia de que tudo é fotografável. Existem belezas que somente os olhos são capazes de captar. Porque foto não pega sussurro, piscada e sorriso de estrela, então escrevo. Porque dentro do que escrevo tem um tanto de sorriso também, mesmo que nas entrelinhas - desconfio que a casa das estrelas seja uma entrelinha no céu imenso onde os aviões e pássaros escrevem. Então às vezes penso em sentar e escrever, mas "não dá tempo". Porque sempre tem alguém querendo passar, tem sempre alguém querendo falar, sempre tem a rotina pedindo licença por educação, mas me empurrando nunca sei pra onde. E todos os dias eu dou licença pra vida passar, mas ela não respeita e me leva junto.

Todos os dias eu quero escrever sobre a estrela que, quando as nuvens ainda não tomaram conta de tudo, brinca de esconde-esconde comigo e me lembra que não importa o quanto a vida queira correr, sempre dá pra parar e sorrir. Porque ela piscou de novo e sorriso parece ser a melhor resposta para uma estrela, não é?

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