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Um sábado como todos os outros. Ou quase.


antes de continuar, você precisa ler este conto aqui ♥
O texto abaixo é a outra versão dele.

Querido diário,

Assim que saí da igreja, parei embaixo da sombra de uma enorme mangueira que tem na praça. Eu estava só passando tempo, esperando por Cecília que tinha ido "dar uma volta" com Heitor, um dos meninos da crisma. Sim, as aspas foram propositais. Eu ainda não havia me acostumado em ter de dividir minha melhor amiga, mas ficar ali sozinha era melhor do que ouvir os berros e palavrões ditos pela boca do meu velho avô. Todo sábado é essa rotina, tão previsível que, no que pudesse, iria evitar.

Cecília voltou com os lábios sujos de batom e um brilho irritante nos olhos. Soltava aqueles risinhos que mais pareciam grunhidos e eu reuni todas as minhas forças para não revirar meus olhos. Acho que bufei em algum momento. Cecília, acho, fingiu não ouvir. Vai ver amizade é isso.

Caminhamos sem pressa. A noite chegou rápida, depois de um fim de tarde com céu alaranjado, daquele jeito que eu gosto, sabe? O frio voltava a mordiscar nossas bochechas e soprava uma brisa tímida. Apertei meus braços contra mim, tentando me aquecer — mas não adiantou muito.

Quando viramos a esquina, vi meu avô sentado debaixo da árvore lá de casa, bêbado, com o facão, como de costume, fincado no chão ao lado dele. Não sei de onde meu avô, raquítico do jeito que é, acha que pode assustar ou amedrontar as pessoas, mas ele teima que sim e a faca é só pra tentar trazer alguma ênfase naquilo que ele não tem.

Atrás da cerca vi o vizinho escondido, com os olhos bem arregalados de pavor. Acho que meu avô o tinha assustado e achei graça. Do nada ele saiu detrás da cerca e foi se arrastando em direção ao meu avô, que despencou a cabeça de lado denunciando um sono profundo. O vizinho soltou um suspiro bem audível de alívio e até agora eu me pergunto que tipo de aventura infantil passava na cabeça daquela criança astuta.

Perguntei o que ele estava fazendo e ele, em sussurros, pediu para que falasse baixinho e não assustasse o avô. Ele estava visivelmente abatido e assustado. Achei graça e lhe sorri, deixando um beijo em seu rosto e entrando em casa. Ele ficou com os olhinhos vidrados e uma cara de bobo, tão fofo. Te contei? É aquele vizinho que, dotado de coragem, me pediu em namoro no auge da sua pouca idade - e que eu lhe pedi para aguardar até que tivesse dezoito anos, lembra? Ele, pelo visto, ainda sim.

Espero que algum dia esses meninos da crisma também se apaixonem por mim...

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