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A gente sabe o que sente


Descrever como me sinto é esperar um espirro que não vem. É incômodo, é frustrante. O sentimento tá ali, tá chamando a atenção, mas não quer dar as caras. É que em mente de escritor toda pulsação é específica. Nossos corações não batem por nada, e quando batem gostam de saber o porquê.

A lista é curta. Os sentimentos como os conhecemos não bastam. Falta o que está entre a raiva e o ódio. Falta o que existe entre a felicidade e a alegria. Faltam as palavras, não o calor. Faltam os termos, não a expressão. A gente sabe o que sente, só não tem um nome certinho.

E é aí que o vício toma conta. Tiramos as palavras do lugar, revertemos os sentidos, substantivamos tudo que há. Escrever vira descrição de um estado de perturbação em paz. Café vira sinônimo de gradualmente aumentar a concentração. Nadar passa a ser a sensação de estar cem por cento abraçado.

Quanto mais aleatório e ridiculamente único o sentimento que somos capazes de descrever com uma simples palavra, mais gostosa, intensa e provável se torna a possibilidade de sentirmos tudo de novo. E nessa brincadeira de dar nomes àquilo que invade os nossos corpos, nos apegamos aos detalhes, àquilo que só sentimos se estivermos atentos.

Atenção.

Acho que é só isso. De resto, cuidado. Cuidado de fechar os olhos e sentir o que quase ninguém sente. Cuidado de nomear direitinho e de aceitar que espirro é espirro, mas espirrar é sentir-se livre.


SAMUEL AGUIAR Aprendi que é melhor escrever c'alma. Assim mesmo, com o apóstrofo e a alma. facebook | @samuelaguiar12  | Blog 
foto por: @ratushny | edição por Mafê Probst

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