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Depois do outono


Sento em frente ao piano que você costumava tocar e as coisas ainda estão estranhas. Abro aquela tampa e nenhum barulho é tão ensurdecedor quanto o silêncio da sala. Faz algumas horas que você saiu sem dizer pra onde ia e meu coração ficou aqui, no meio dessas teclas e do cheiro de mofo provocado pela umidade do inverno sem fim dessa cidade.

Tudo parece uma marcha fúnebre, igual àquela que costumávamos tocar quando queríamos rir da desgraça alheia. Não parece engraçado agora.

Lembro do primeiro dia que cruzamos o olhar. Era uma tarde úmida de outono. Você reclamava do calor que fazia e eu só sabia dizer que estava preocupada com os trabalhos da faculdade. Talvez tenha sido no momento que te vi tocar a primeira nota no piano, ou na primeira vez que sorriu ao me ver cantar a música no tom certo, que tive certeza de que era você.

Sempre achei que a trilha sonora de um dia não é necessariamente a música que estamos ouvindo no momento que vemos alguém, mas aquela música que nos faz lembrar do jeito da pessoa. Eu lembro de você toda vez que escuto algum acorde de piano. Não é uma música em específico, é só a vibração das notas harmônicas soando no ar. E mesmo que sempre tenha dito que estava aprendendo a tocar, achava singular a forma que colocava os dedos finos e longos nas teclas brancas e pretas do piano.

Branco e preto, é assim que eu vejo os dias. É como se a nossa casa fosse agora uma prisão. Não para dois amantes, mas para um detento sentenciado ao regime fechado em uma solitária. Faz frio e já não é mais meia estação, o que prevalece aqui é o frio rigoroso. Não sei se meu destino vai ser a prisão perpétua ou se algum dia verei a luz do sol por fora dessas grades, só sei que já não ouço mais os acordes que tuas mãos combinavam.

Fechei a tampa sem sequer tocar nas teclas. Algumas vezes, é melhor o silêncio para nos fazer esquecer as coisas.





foto: @dsoodmand | edição: @mafeprobst

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