icones sociais

Gordinha não!


Eu estava na praia tirando umas fotos maravilhosas da minha cunhada de catorze anos. Ela é magra, toda trabalhada nos cachos e na pele macia (ah, meus catorze...) Eu a acho linda. Ela nunca se acha bonita — na realidade ou nas fotos. Sempre tem algum defeito. A cada clique eu pedia, secretamente, que ela se enxergasse através dos meus olhos e visse o quanto é maravilhosa. Com o nariz que ela detesta, com a sobrancelha que nunca foi tirada, com o cabelo foda e lindo que eu sempre quis ter, mas minha mãe infelizmente engravidou de um cara branco (fazer o quê).

Eu quis mostrar para ela que ela é linda, tanto quanto eu queria ter tido consciência da minha beleza quando tinha a idade dela e me achava horrível, mais ou menos como tenho me achado hoje em dia. Mesmo que eu tente me inspirar nas mulheres maravilhosa e bem resolvidas que conheço, para absorver o máximo de confiança que eu posso, as coisas não são tão fáceis assim. E aí um tapa imaginário acerta minha cara, entre uma foto e outra. Quem foi que disse que eu não posso ser linda agora também? E se daqui a 30 anos eu olhar minhas fotos e pensar "queria eu estar acima do peso feliz como naquela época", do mesmo jeito que olho minhas fotos de 13 anos atrás e penso "Você era gostosa e nem sabia, idiota". E se eu resolvesse não mais odiar cada centímetro de gordura extra?

Então peguei a câmera e, desta vez, tirei uma foto minha. Não escondi as gorduras do pescoço, mudando o ângulo da câmera. Não cortei da foto o restante do meu corpo. Eu já me cortei demais — nas fotos e na alma, por não estar dentro do "peso ideal" e sim trinta e quatro quilos acima dele. Sim, tudo isso. Mas o peso da cobrança social é gigante. O peso da saúde é dez vezes maior que ambos.

Eu sei que não é por falta de cuidado. Eu sei o que eu passo todos os dias ao acordar e desejar estar em outro corpo, um que não esteja entrando em choque, um que não me cause dores — muitas vezes insuportáveis —, um que não me impeça de entrar no box do banheiro sem ter que murchar a barriga. Eu sei o que é desejar um corpo que não seja alvo de olhares, de piadas ou curiosidade de quem não sabe se deve ou não me ceder o lugar preferencial no transporte público. Eu sei o que é querer mudar e não conseguir da noite para o dia, como consegue todo o resto do mundo, né? E sim, eu fui irônica. Eu sei de tudo isso e o lance é que eu não preciso me justificar pro mundo todos santo dia.

Eu
não
preciso
‎me
explicar.

Quando eu conto para alguém sobre meu casamento, por exemplo, ao contrário do que a maioria das pessoas acredita que eu deva fazer, eu não começo com "Olha, sou casada com uma mulher, tá?". Eu simplesmente falo dela como falam todos os outros casais — os que a sociedade considera "normais", embora pra mim normal seja amar apenas. Eu não me explico, eu apenas sou o que sou e quem não quiser entender que se dane. Eu não espero por compreensão, eu espero apenas por respeito. E se, com um assunto, eu consigo ser assim, por que não com os outros? Por que não com o meu corpo? Por que não comigo?

Então eu decidi que, mesmo sem me amar assim, mesmo ainda desejando e buscando mudanças que, infelizmente, não dependem apenas da minha força de vontade, eu não vou mais me esconder. Chega de ouvir "nossa, como você é fotogênica", pra disfarçar um "pela foto você nem parece que é gorda". Chega de me preocupar vinte e quatro horas por dia com o que as pessoas estão pensando quando eu visto um short curto ou uso uma regata decotada. Por mim e por todas as outras meninas/mulheres que passam por isso e por coisa muito, muito pior, e permanecem de pé. Vocês são foda!

Então vai ter gorda de biquíni. Vai ter gorda de braço de fora, de vestido, de alça fina, de maiô, de saia, de shortinho curto e barriga de fora. Vai ter mulher vestindo o que ela quiser. Com sorriso largo e bochechas aparentes sim. Ou não. Porque eu não sou ou estou "cheinha", "fofinha", "fortinha"... Eu não sou nenhuma "inha".

Muito mais do que ser/estar gorda, eu sou mulher demais pra caber em diminutivo!!!



Comentários

Instagram