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O esforço que a gente faz


Coloquei a sapatilha e levantei. Não lembrava do desconforto que o gesso na ponta dela causa nos pés, mas segurei na barra e meio tímida olhei para o espelho. Lá estava eu. Tudo igual há três anos. Quase tudo. Saia. Meia calça. Collant. Sapatilha. Um aperto nos pés. Um aperto no peito.

Enquanto estava concentrada no exercício que a professora passava, constantemente eu lembrava de ti. A música começou e os meus braços e pernas estavam em profunda sincronia nos primeiros movimentos. Meu coração continuava descompassado e logo tudo se perdeu. Nunca gostei de não decorar as coisas. Parei, respirei fundo e recomecei fechando os olhos antes de tudo. O primeiro movimento delicado das mãos, a cabeça inclinada e eu podia jurar que tu estava do meu lado. Covardia - loucura na realidade - sentir o teu cheiro, mesmo sabendo que tu nem lembrava de mim provavelmente. Abri os olhos e notei que tudo estava igual.

Engraçado pensar no tanto de esforço que uma bailarina precisa fazer para erguer uma perna e parecer delicada. Ela precisa fazer uma força inimaginável com o abdômen e todos os músculos de seu corpo. Dói pra caramba, mas ninguém precisa saber. Sinto mais ou menos isso quando te vejo, mas não te tenho ao alcance das mão. Dói pra caramba. O abdômen e os músculos todos do meu corpo fazem um esforço danado, mas meu rosto não mostra o desconforto.

Cinco...seis...sete... E o oito nunca chega.

A hora de começar a sentir a adrenalina pulsando nas veias antes de um salto ou pirueta não acontece. A música e nós dois também não. Quem sabe, se eu fechar os olhos mais uma vez, vou sentir tuas mãos e quando abrir os olhos tu vai estar ali, né? Vou fazer um esforço danado pra acreditar nisso, só até eu cansar. Quando eu cair, vem me levantar. Me pega nos braços, como só tu sabe fazer e me faz descansar, pra poder recomeçar.



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