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Dos que valem a pena


Eu devia ter uns 15 anos, talvez menos, ou quem sabe um pouco mais, mas a lembrança ainda permanece comigo... eu nunca acreditei nessa história de amores verdadeiros. Lembro bem que meus comentários giravam em torno dos contos de fadas e dos felizes para sempre. O “para sempre não existe”, eu insistia em dizer, crente de que os amores eram impossíveis.

E continuei dizendo por anos consecutivos, acreditando na ideia de que eu seria uma daquelas mulheres bem resolvidas, que sai de casa de manhã bem cedinho, passa o dia todo em cima do salto, vai pra academia no início da noite e a finaliza com um chá e um bom livro que ficaria ao máximo uma semana na cabeceira. Quando a gente é adolescente parece que as coisas são tão mais fáceis, mas ainda assim parece tão mais insuportável conviver com as crises da idade.

Obviamente toda a minha ilusão das tão poucas primaveras completadas, uma hora ou outra iria por água abaixo. Na verdade eu nunca gostei muito de salto alto, muito menos de chá, prefiro frequentar a academia pela manhã, a única coisa que era certa foi a fala dos livros... esses sim eu não permito que fiquem mais de uma semana na cabeceira, mas é constante eu ler dois ou três ao mesmo tempo. As histórias por vezes me cansam ao jogarem na minha cara uma realidade que, por tanto tempo, eu tento ignorar.

Mas a dúvida ainda persiste: quem eu estou tentando enganar? 

O amor chegou de diversas formas pra mim, assim como um dia chega pra qualquer mero mortal que insiste em dizer que não passa de reações químicas. E são, é verdade, porém o medo de não conseguir me reerguer sempre me paralisou e fez com que eu acreditasse que não seria real. Por vezes a gente prefere fugir do que enfrentar o medo e perceber que a dor emocional consegue ser ainda pior que a física.

Deixar de viver parecia-me mais certo do que encarar uma experiência que poderia me causar tanta dor depois do fim. E com o tempo eu percebi que viver a dor vale a pena para experimentar as sensações causadas pelo amor. Eu segui reafirmando essa crença até chegar ao hoje em que a ideia de amores impossíveis e de não existir o felizes para sempre me bate a porta.

E insistiu tanto em bater que me fez ficar com dor de cabeça com os toques constantemente repetidos na porta de madeira. Deixei entrar como quem não tem outra opção a não ser aceitar a visita inesperada que já viu que a luz da sala estava acessa e que as cortinas denunciavam sombras de alguém caminhando pelos corredores.

Ela veio com uma lembrança carregada de uma fase difícil e, ao mesmo tempo, tão gostosa. Trouxe sensações, sons e sabores daquela idade citada ao início do texto... e eu me rendi novamente a possibilidade de amores impossíveis que apresentam as estatísticas mais elevadas de fracasso, mas, que ainda assim, são os que mais valem a pena ser vividos.


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